
As palavras, aqui, são perfeitamente dispensáveis. Gestos e expressões se incumbem de falar de um tema universal, as relações familiares. Motivo pelo qual “Irmãos de Sangue” não encontra dificuldades para se comunicar com plateias das mais distintas. A montagem da Cia. Dos à Deux, que chega agora à capital mineira, arrebatou a plateia do Festival de Avignon no ano passado. Não bastassem os aplausos, recebeu menção mais do que incentivadora do Le Monde: “Teatro gestual, inventivo e poético, que alcança grande sucesso”.
Antes de partir para a rota já tradicional do grupo – que inclui o continente africano e países asiáticos –, a empreitada traz, à capital mineira, os dois artífices – André Curti e Artur Ribeiro –, em companhia de dois atores, um argentino (Matías Chebel) e uma francesa (Cécile Givernet). Nesta temporada brasileira, a companhia – formada na França e que, hoje, mantém trânsito entre Paris e Rio de Janeiro, onde, na Glória, mantém uma sede também voltada à pesquisa e à formação de profissionais – passou primeiro por Brasília. “Foi uma experiência maravilhosa, com teatro lotado, ótimas críticas”, conta André, acrescentando que há, na iniciativa, uma dramaturgia forte a ponto de tornar a encenação plenamente compreensível, “decodificável”, ao público. “Não é abstrato”. O que vai ao encontro da proposta já reverberada em outros títulos do repertório da Dos à Deux. “É o forte do nosso trabalho, o que faz a montagem ser interessante mesmo diante de públicos que possam ter leituras diferenciadas, seja na África Central ou no Japão, ou na Índia”, diz André, frisando que o tema “família” favorece a identificação. “Família é família, em algum momento (da encenação) você (o público) se identifica com uma situação mostrada”.
Em cena, três irmãos e uma mãe. Em um certo momento, um dos irmãos morre. “Muita gente se emociona muito, alguns inclusive porque já vivenciaram essa situação. Mas acho que se identificam mesmo é com a força da relação entre os irmãos e com a mãe, que tem um papel importantíssimo nesta dramaturgia. Inclusive, há pessoas que acabam voltando para trazer a mãe”.
Pela primeira vez no Brasil, Cécile resolveu aprender um pouco de português pela internet, “para não ficar a francesa deslocada”, conta André. “Foi um grande passo”, elogia ele, lembrando que a passagem pelo Brasil, para ela, constitui-se uma experiência única. “Trata-se de um público completamente diferente”. E qual o motivo? “Sinto um grande carinho pelo trabalho da companhia. É muito gostoso, e até engraçado, você encontra pessoas que dizem: ‘vocês são tão queridos’, e, de fato, sinto isso”, diz ele, naturalmente satisfeito com o acolhimento.
“Irmãos de Sangue” – Centro Cultural Banco do Brasil/ CCBB (Praça da Liberdade). Hoje a 6/4.
Sextas, às 20h; sábados e domingos, 19h. R$ 10 e R$ 5 (meia) Classificação: 14 anos. Informações: 3431-9400