Companhia Olho Nu elabora espetáculo a partir do descaso com a malha ferroviária nacional

Bianka de Andrade Silva e Wilmar Silva de Andrade*
Publicado em 25/07/2014 às 08:25.Atualizado em 18/11/2021 às 03:31.
 (Gato Muniz)
(Gato Muniz)
O tipo de humor que predomina há anos na Campanha de Popularização do Teatro e da Dança de BH é uma mola propulsora à alienação – e disso a sociedade não está precisando. Esse humor sem graça presta um desserviço à sociedade, pois funciona como um distrator anestesiante e até como um impulsionador de ideologias machistas, homofóbicas e racistas. Nesse contexto, iniciativas como a de Geraldo Octaviano – que assina “Parada do Trem”, em cartaz na cidade desde o dia 18 e até este final de semana – se tornam exemplares e cruciais para vislumbrar uma mudança de direção no que tange à arte consumida e apoiada por grandes eventos.
 
Em “Parada do Trem”, Octaviano assina texto, direção e iluminação. No último dia 20, estivemos lá, no pequeno espaço do Galpão 4, e pudemos experimentar um momento de fruição, reflexão e humor cortazariano – esse que apela concomitantemente à descontração e à percepção crítica, que engaja o espectador numa consciência coletiva de questões que necessitam de sua intervenção não como ser individual, mas como membro de uma sociedade.
 
A causa que perpassa o espetáculo é a do descaso das instâncias governamentais com a malha ferroviária brasileira para o transporte de pessoas e, deste ponto, é um passo para a reflexão acerca dos caminhos que as políticas de transporte têm tomado em nosso país.
 
O estímulo à compra de carros, por exemplo, é revelador de um método que estimula o cidadão a se responsabilizar pela sua mobilidade, enquanto o Estado se isenta da responsabilidade de investir em transporte público suficiente e de qualidade.
 
“Parada do Trem” toca explicitamente nessas questões partindo do caso particular da Estação da Gameleira, que completará cem anos em 2017 e está prestes a desabar. Metonimicamente, é um pequeno caco que compõe o mosaico da complexa questão referente aos rumos que as políticas públicas de transporte no Brasil têm tomado.
 
Para espessar as interpretações dos atores, a peça mergulha no universo de dois nomes fundamentais da poesia brasileira e de um escritor único no contexto hispano-americano. Os textos de “Tu não te moves de ti”, da poeta Hilda Hilst; do “Poema Sujo”, de Ferreira Gullar; e o cômico e crítico relato do progresso dos transportes às avessas “El Tesoro de la Juventud” – presente no livro-almanaque “Último Round” –, de Julio Cortázar, enriquecem o desenvolvimento do espetáculo. 
 
A peça incorpora ainda o trecho do “Poema Sujo” que se tornou a letra de “O Trenzinho Caipira”, um dos movimentos da “Bachiana Brasileira nº 2” de Heitor Villa-Lobos.
 
Um teatro que se faz a partir e através da realidade e do resgate de uma memória que poderia ter como destino o esquecimento, porque, infelizmente, não interessa ao modelo gestor que se instalou nas instituições governamentais.
 
A própria história do teatro vive uma decadência endossada pelos poderes públicos. Fazendo um contra-caminho, Geraldo Octaviano faz parte da história do teatro brasileiro, mesmo sendo um nome (ainda) pouco falado. Ele coloca em diálogo não só a linguagem herdada por um Jerzy Grotowski ou um Augusto Boal, mas, mais que isso, o teatro de Octaviano revela uma linguagem de pesquisa cênica.
 
O que é teatro no terceiro milênio se, afinal, a sociedade hoje é uma sociologia de espetáculos? A poética de Octaviano é uma linguagem em processo de identidade que se alimenta das artes experimentais. “Parada do Trem” confirma a sua tendência a um teatro-verdade ao colocar a história como sua poesia de base. Resta-nos desejar – e, enquanto cidadãos, exigir – que iniciativas como essa se tornem mais e mais recorrentes.
 
*Especial para o Hoje em Dia
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