
Desde sábado (5), quando o jornal Folha de S. Paulo apresentou uma matéria sobre o posicionamento de seis grandes compositores contra a publicação de biografias não autorizadas, uma intensa discussão foi colocada no universo da cultura. Caetano Veloso, Chico Buarque, Milton Nascimento, Gilberto Gil, Djavan e Erasmo Carlos se colocaram contrários a tais biografias por meio do grupo Procure Saber, capitaneado por Paula Lavigne.
O posicionamento desses artistas acontece no momento em que a Anel (Associação Nacional dos Editores de Livros) move no Supremo Tribunal Federal uma Ação Direta de Inconstitucionalidade, para questionar os dois artigos do Código Civil que impedem a publicação sem a aprovação prévia dos biografados ou de seus herdeiros. Isso feriria a liberdade de expressão.
Intimidade
Paula Lavigne foi à imprensa para mostrar o lado da Associação Procure Saber. Em artigo publicado em alguns veículos, a produtora afirma que "expor a vida íntima e privada de homens e mulheres públicos, os pedaços de vida que essas pessoas têm e que são absolutamente privados, não serve aos nobres objetivos da instrução e do conhecimento, e sim para alimentar uma das mais conhecidas fraquezas do ser humano: a fofoca".
O Procure Saber bate de frente com um grupo de historiadores e escritores que divulgou um manifesto mês passado contra a suspensão da tramitação do projeto de lei que libera a publicação de biografias sem autorização dos retratados.
Assinado por autores como Boris Fausto, Ferreira Gullar e Ruy Castro, o texto afirma que a proibição às biografias não autorizadas é um "monopólio da história, típico de regimes totalitários". O assunto será debatido na Feira de Frankfurt, maior evento literário do mundo, esta semana.
Os artistas envolvidos foram procurados pela redação do Hoje em Dia, mas ninguém foi encontrado. O assessor de imprensa de Milton Nascimento afirmou que nenhum deles pretende falar individualmente sobre a questão.
Escritores criticam nota escrita por Djavan
Muitos jornalistas, historiadores, escritores e cineastas se manifestaram contra os artistas – em especial, contra Djavan, que soltou uma nota afirmando que "a liberdade de expressão, corre o risco de acolher uma injustiça, à medida em que privilegia o mercado em detrimento do indivíduo; editores e biógrafos ganham fortunas enquanto aos biografados resta o ônus do sofrimento e da indignação".
Co-autor de uma biografia vetada de Noel Rosa, João Máximo afirma ter ficado surpreso com a posição de Djavan, em texto publicado na coluna de Ancelmo Góes, em O Globo: "Processe-se o biógrafo que injurie, calunie, difame ou fira a verdade em qualquer medida; mas respeite-se o que, ao biografar seriamente um homem público brasileiro, contribua de alguma forma para contar um pouco da História do Brasil".
Formado por vários famosos da MPB – além dos seis citados, Roberto Carlos, Marisa Monte e Lenine – o grupo Procure Saber também esteve envolvido na mudança da regulamentação do ECAD e na PEC da música. Sua conta no Twitter é @PROCURE_SABER.