Contra a maré: artistas do pincel resistem à pressa imposta pelo mercado

Clarissa Carvalhaes - Hoje em Dia
Publicado em 13/10/2014 às 08:10.Atualizado em 18/11/2021 às 04:35.
 (Ricardo Bastos)
(Ricardo Bastos)

Neste exato momento, é provável que os cinco jovens artistas da foto ao alto estejam, em seus ateliês, debruçados sobre tintas, pincéis e projetos individuais que não lhes darão a menor garantia de que o resultado trará algum retorno financeiro.

Certeza que, aliás, também nunca bateu à porta de nomes como Van Gogh, Caravaggio ou Modigliani. Não seria diferente, portanto, agora – em uma era que abre espaço a uma corrente imensurável de expressões dentro do campo das artes.

Instalações, performances, vídeos e a própria fotografia: são tantas as caras que a arte assume hoje que um pincel é quase um “velho senhor” com avental diante de criancinhas com iPhone na mão.

Significativos termômetros que refletem a mudança que atinge o segmento, as bienais de arte em todo o mundo têm privilegiado cada vez menos a pintura em seus espaços. Se em 1951, a primeira Bienal de São Paulo teve, entre seus principais trabalhos, o painel “Guernica” de Pablo Picasso (obra que ponderou a importância da pintura dentro do evento naquele ano); nesta 31ª edição atesta-se tom avesso: dos cerca de 250 trabalhos que podem ser vistos até 7 de dezembro, menos de 60 são pinturas.

A professora-adjunta do Departamento de Artes Plásticas da Escola de Belas Artes da UFMG, Maria Angélica Melendi, a Piti, acompanha desde os anos 2000 a discussão sobre a expansão das vertentes das artes visuais.

“A pintura é, historicamente, uma arte maior, mas hoje os artistas têm possibilidades de escolha e, portanto, ela deixa de ser a principal representação. Alguns pintores querem manter o status de artistas privilegiados e isso não existe mais. O artista contemporâneo acaba circulando por outras esferas – e o próprio mercado exige isso”, comenta.

Mercado que às vezes mais, noutras menos, acaba interferindo não apenas nas escolhas do artista, como na própria produção e pesquisa. Especialista em História da Cultura e da Arte pela UFMG, Raquel Lana ressalva a urgência que os tempos modernos exigem dos artistas em produzir e apresentar resultados. “Numa época onde tudo é espetáculo, a arte também tem pressa de ser vista, publicada, replicada. Às vezes, ela sequer pode esperar uma tela ficar pronta. Por isso são valentes os que assumem a pintura como profissão única”.

Pintura, um ofício quase nada romântico

A legitimidade do “ser” artista não está no ato de criar uma obra com o objetivo de que ela seja exposta em uma bienal. Tampouco de que seja bem recebida no mercado ou lembrada pela história da arte. “Na escola, sempre falamos sobre liberdade e não há outra forma de se pensar um artista: essa é sua essência”, afirma Piti, professora da Escola de Belas Artes da UFMG.
Para Eduardo Fonseca, de 30 anos e que há quase dez se dedica à pintura, a sobrevivência no mundo da arte está diretamente ligada à dedicação e resistência.

“A decisão de viver da pintura nem sempre foi uma certeza pra mim pelo fato de ser um ofício nada comum e com grande possibilidade de frustração. Às vezes tenho que ficar um tempo na hibernação, enfiado no ateliê só produzindo, o tempo todo, tentando costurar um trabalho no outro para criar uma linha de raciocínio e ter uma exposição para apresentar. E é nesse tempo que não se vende nada. Quando as reservas vão diminuindo, acabo me consumindo também”, comenta.

“Gosto de pensar que a pintura é uma ‘entidade’ que escolhe seus ‘veículos’ para se materializar. E como ‘entidade’, exige de seu veículo dedicação, tempo e concentração em uma era de aceleração e de excesso de informação às vezes desnecessária. Pintar para mim é uma espécie de ‘lamento imagético’, um exercício vinculado ao exercício da vida, onde a contradição se torna material de trabalho”, explica Estan De Lau, 31 anos.

Para Renata Laguardia, de 23 anos, nem de longe, a escolha pela pintura foi a decisão mais fácil. “O meu trabalho não é fácil de ser vendido, mas não me vejo em outro caminho. Desde que comecei a desenhar sabia que o que eu queria era pintar”.

“Sinto uma coisa bonita quando observo um quadro e vejo os movimentos do pintor sobre ele. E mesmo depois de sua morre, o movimento e o ritmo permanecem”, completa.

Já Thiago Mazza, de 30 anos, recorda que a pintura passou a fazer parte efetivamente da sua vida depois que decidiu pintar o próprio quarto. “Logo em seguida, foram aparecendo um trabalho atrás do outro. Quando me dei conta já estava vivendo disso. Hoje, não aceito uma obra onde não possa colocar minha identidade”, assegura.

Participando de uma residência artística no Centro Cultural UFMG, Gilson Mariano, 27 anos, destaca que o poder da pintura frente à outros manifestos artísticos está na possibilidade de brincar com o olhar do observador. “Para mim, ser pintor sempre foi um desafio. No início era uma linguagem que não dominava e ainda hoje cada trabalho me impõe algo novo, mas tenho a oportunidade de criar o que eu quiser”.

MERCADO

Mas Eduardo Fonseca aponta que a grande sacada desse “jogo” está no ser sincero consigo mesmo e com quem gosta do seu trabalho. “É importante não parar de pintar e criar uma demanda através da insistência”, ensina.

Apesar de todas as dificuldades e concorrência, os próprios artistas asseguram que pinturas são mais fáceis de serem vendidas em Belo Horizonte do que em polos como São Paulo e Rio. “Aqui a maior parte dos compradores têm como objetivo a decoração. Por lá, as pessoas estão interessadas em adquirir o artista sabendo que ele é um pesquisador e, assim, ele sabe que está financiando uma pesquisa. A pintura, aliás, é um investimento mais seguro que ações na bolsa, porque não há queda do valor no mercado de um artista”, explica Estan De Lau.

No entanto, nem toda pintura é de fácil “digestão” e, evidentemente, comercialização. Gilson, que em uma de suas séries pintou corpos fragmentados e desfigurados, pôde identificar a necessidade de se fazer concessões. “Nós, artistas, temos que saber nos infiltrar em todos os lugares”.

É então que Renata lembra de uma ocasião onde um comprador pediu que ela aumentasse o maiô da personagem que fazia topless. “A galeria nem me perguntou porque é óbvio que eu não ia fazer”.

Uma resistência da qual os quatro colegas fazem coro. Como se da própria indignação, cada um desses jovens pintores contribuíssem para um olhar subversivo do mundo – porque talvez seja esta, no fim das contas, a razão para a arte existir. 

Compartilhar
Ediminas S/A Jornal Hoje em Dia.© Copyright 2026Todos os direitos reservados.
Distribuído por
Publicado no
Desenvolvido por