
O resultado foi divulgado no último dia 10: a pesquisa “Públicos de Cultura: Hábitos e Demandas” – realizada pelo Sesc (com a Fundação Perseu Abramo)– apontou que 58% dos 2.400 entrevistados (em setembro de 2013, em 25 estados) não leram nenhum livro nos últimos seis meses. No Dia Mundial do Livro, não é um marco dos mais animadores – mas tampouco joga uma pá de cal na fé dos que ainda acreditam no poder do livro como força transformadora da sociedade.
Caso do estudante de Letras (na Ufop) Basílio Pedro Impoi Gomes, 29 anos. Natural da Guiné-Bissau e há cinco anos no Brasil, ele defende que o brasileiro, por exemplo, lê mais do que seus conterrâneos. “Aqui, se lê mais por prazer”, aponta, ressaltando que, “lá”, a leitura é motivada mais por uma imposição escolar, por exemplo. Não foi esse o caso que o fez se aproximar da literatura de Machado Assis. Basílio teve contato com obras do “bruxo do Cosme Velho” na Embaixada do Brasil em seu país. Foi cooptado de tal forma que quis se aprofundar mais. Hoje, é fã também de Clarice Lispector, um dos nomes que figuram em seu rol de autores preferidos, e que traz, ainda, escritores dos outros idiomas e dialetos que domina, como o francês.
O lastro fornecido pelas páginas que, como bom leitor, Basílio não se furta a devorar já é “velho conhecido” de um veterano que há muito vem encantando gerações com suas palavras impressas.
“Os livros me deram asas. Quando se lê um livro, a gente voa, voa voa... Fica mais leve. Sem eles, a gente rasteja. Com livros, subimos montanhas”, assegura o mineiro (de Boa Esperança) Rubem Alves, do alto de seus 80 anos.
Um rol de ferrenhos defensores
Mesmo sofrendo a concorrência por vezes desleal de outras fontes de informação e entretenimento, o livro – em particular, o impresso – arregimenta ferrenhos defensores em plagas mineiras. Caso do premiado poeta e designer gráfico Bruno Brum, 32 anos. “O livro é, há séculos, um dos mais importantes instrumentos de difusão e conservação do conhecimento humano”, atesta o vencedor do Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura de 2010.
“Todo livro diz respeito ao tempo e à memória, temas que povoam nossa imaginação desde os primórdios”, prossegue o autor de “Mastodontes na Sala de Espera”, entre outros títulos.
Motivo pelo qual Bruno não acredita que haja qualquer tipo de contradição entre os livros e o mundo atual. “A metáfora da página sendo passada continua sendo a base da internet e das publicações eletrônicas”, prossegue, para depois esmiuçar sua linha de raciocínio. “Toda a forma de se pensar e organizar a informação no ambiente digital, seja em computadores, tablets ou celulares, remonta ao livro impresso. E – talvez o mais importante – livros são cápsulas do tempo, que nos permitem o contato amplo e diverso com o outro: outros povos, outros tempos, outros lugares, outras formas de pensar o mundo”.
Bruno Brum entende que a máxima do poeta francês Stéphane Mallarmé, de que tudo existe para terminar em livro, continua viva. “Provavelmente mais viva do que nunca”. Em raciocínio complementar transita Lucas Guimaraens. “O poder do livro, sobretudo nesta dita ‘nova contemporaneidade’ (redundâncias à parte), é também objeto-arte. Ele, sozinho, sem prescindir de sua leitura, já é um objeto que comunica com o mundo. Cada comunicação, um jogo de linguagem, como diria o filósofo alemão Wittgenstein. Uma obra de arte”.
Embaixador do Cercle Universel des Ambassadeurs de la Paix (Unesco) e presidente da Associação de Amigos do Museu Casa Alphonsus de Guimaraens, Lucas aventa que hoje, mais do que nunca, em momentos de instabilidades sociais, econômicas e “identitárias”, o livro e a leitura se transmutam, de alguma forma, na “garantia e na homeopatia de novos delírios construtivos, de novas possibilidades de compreensão e, através dela, de paz”.
Com a palavra, um outro poeta, Wilmar Silva de Andrade. O nome por trás do projeto “Terças Poéticas”, atualmente abrigado na Casa Una, diz manter uma relação física e sagrada com o livro. Mas frisa que a literatura não cabe apenas nos livros. “Hoje, o livro não consegue suportar tudo que se produz a partir da literatura”.
Tanto seria verdade, prossegue, que os escritores estariam migrando para outros suportes. “O livro é o passo de uma metamorfose para outra obra de arte... Mas, ainda assim, tenho esta relação de tato, física com eles. Sempre tenho vários livros na bolsa, na mão, no carro. É parte de mim. Já leio e-book, mas tem diferença. É como ver a foto de um arco-íris e estar, realmente, em frente do arco-íris. A alma não tem como transferir. É preciso ampliar esta data (o dia de hoje), para que se torne cotidiana. É preciso tornar o livro vivo e ao vivo”, advoga, com propriedade.
"Algo muda, afinal, Drummond fala de tudo"
Presidente da Academia Mineira de Letras, o mineiro Olavo Romano engrossa o caldo dos que creem no poder do livro. “Hoje, a gente vive no meio de tantas possibilidades que muitos pensam que o livro está ameaçado. Mas foi assim com o cinema e o teatro em relação à televisão e ao vídeo e a todas as novas mídias que foram surgindo. E a gente percebe que há lugar para todas (as plataformas) e cada uma encontra seu caminho”, diz ele, que já lançou sete títulos.
E é justamente por compartilhar deste credo que Solange Duarte Alvarenga, professora de Literatura e coordenadora do Memorial Carlos Drummond de Andrade, em Itabira, se mantém firme na opção por trabalhar com o que chama de “magia da leitura”.
O Memorial mantém projetos educativos como o “Drummond para Crianças”. E Solange conta que a reação das crianças ao pegar um livro pela primeira vez é, no mínimo, “muito interessante”. “Elas leem a poesia antes e depois de trabalharem o texto, ‘mastigando’ o poema junto a outras artes... aí, os olhos brilham! Alguma coisa muda. Afinal, Drummond fala de tudo”. O que reverbera de imediata uma frase do próprio poeta de Itabira, a de que a leitura seria uma fonte inesgotável de prazer. Refletindo, ainda, o poder do livro e o da leitura apontados por Lucas Guimaraens. “Sua semente (a da leitura) é a possibilidade de reflexão, o início de qualquer pensamento de liberdade. Seu contrário, a distração ou ausência de leitura concentrada seria possibilidade certeira de manipulação ou definhamento do pensamento próprio”. Que a leitura e o livro sigam driblando todas as intempéries, pois.