
Gravar um disco atualmente certamente é uma tarefa menos hercúlea do que há dez anos atrás. Não precisamos voltar nos tempos dos gravadores de fitas de rolo (que aliás estão de volta e com muita força) para entender que a tecnologia a preços mais acessíveis vem permitindo aos artistas divulgarem seu trabalho com qualidade sem que seja preciso "colocar um rim à venda". Ainda assim, é um processo custoso e que demanda investimento para que o material tenha qualidade. Por isso, o caminho mais simples é aprovar um projeto em um edital de Lei de Incentivo e captar junto a grandes empresas que terão descontos em impostos, correto? Pois para muitos essa não é uma opção viável.
Além das dificuldades em si de se construir um projeto que seja aprovável, há uma escassez de recursos disponíveis, e o processo de captação costuma ser penoso. Há, inclusive, diversos profissionais especializados tanto na composição do projeto quando na captação dos recursos junto ao empresariado, o que por si só aumentaria os gastos da empreitada.
Por isso, as vaquinhas virtuais, financiamento coletivo ou crowdfunding, ganham adeptos até mesmo pela facilidade. O próprio artista é responsável pela divulgação e pelo processo como um todo, negociando diretamente com a ferramenta escolhida, sem atravessadores.
Para alguns, uma forma de se livrar da burocracia que envolve outras formas de obtenção de verba. Para outros, uma tentativa de fugir do auto-financiamento de seus trabalhos, que acaba sendo, também a escolha de alguns artistas.
É o caso do guitarrista e compositor Raul Mariano, de Lagoa Santa, que após anos à frente da banda A Nuvem, lança seu primeiro trabalho solo autoral. Ele escolheu o Catarse, uma das mais populares ferramentas de crowdfunding para angariar os recursos para o lançamento de seu trabalho.
Dupla também apostou no financiamento coletivo para gravar seu material autoral
Concretizando um sonho
"Foi a maneira mais eficaz e verdadeira que encontrei para terminar esse primeiro trabalho. Eu arquei com os custos de todas as etapas anteriores de gravação e, nessa fase final, fiquei sem recursos disponíveis para prensar o disco e fazer o show de lançamento. Eu poderia até lançar o trabalho apenas no formato virtual, mas depois de tanto esmero e tempo dedicado ao disco, entendi que era importante materializar todo esse esforço. Então vi que envolver as pessoas nisso seria uma forma interessante até mesmo para medir o alcance que o álbum pode ter. Decidi levantar esses R$ 8 mil pelo Catarse. O projeto tem evoluído, e minha crença na força da coletividade só aumenta a cada dia. Tenho muita esperança de conseguir", contou.
Esse também é o caminho da dupla sertaneja David Souza e Gustavo, naturais de Sabará, que desde criança cantam juntos e apostam na alternativa para lançar seu trabalho, focado no sertanejo de raiz, fazem questão de frisar.
"Arranjar dinheiro para concretizar o nosso sonho sempre foi um grande desafio. Os caches no interior são pequenos, faltam mecanismos de incentivo do governo e não há investidores. Então achamos que fazer uma vaquinha virtual poderia ser uma chance de conseguir gravar nosso primeiro disco. O processo é mais fácil e menos burocrático que por lei de incentivo, que pra gente acaba sendo inviável por questão técnica e de tempo", contaram ao Hoje em Dia.
Péricles Garcia teve sucesso em sua primeira empreitada e já conseguiu viabilizar o segundo projeto
Financiamento coletivo pode contribuir para aumento de fãs
A experiência de crowdfunding já foi vivenciada, e com sucesso em duas empreitadas, pelo cantor e compositor Péricles Garcia. Após o sucesso da captação de recursos para a gravação de "Outros Heróis", de 2013, ele apostou mais uma vez na força da galera para seu novo projeto, "Rua Universo" que já está sendo gravado e conseguiu atingir 120% do valor pretendido através do Kickante.
"O primeiro serviu para eu ver que tinha pessoas que confiavam no meu trabalho. É uma ferramenta de confiança, ele confia que você vai gravar o disco, vai entregar na época certa, então é uma coisa de depositar um voto no artista", diz Péricles.
O músico destaca que a empreitada de sucesso aumentou sua vontade em investir em sua carreira autoral (ele também atua no mercado de bandas cover da cidade, além de tocar em eventos). Além disso, serve como uma boa ferramenta para conhecer o tamanho de sua base de fãs. No primeiro projeto foram cerca de 100 apoiadores. Já neste segundo momento 232 pessoas participaram da campanha.
Esse foi o caminho também escolhido pelo cantor e compositor Daniel Gama, que trabalha em seu segundo disco autoral. Seu primeiro álbum, Manifesto Dissonante foi inteiramente bancado com recursos próprios, seja do próprio bolso ou angariado com shows, já trazendo, então, essa cara de participação do público na materialização do disco.
"O financiamento coletivo projeta a possibilidade de um passo além, permitindo a este mesmo público uma participação ainda maior na realização deste projeto; arte que foi feita para este público, e também feita por ele. O financiamento coletivo é mais eficiente e dinâmico sim, mas o que me atrai é o júbilo de seu projeto ser aprovado diretamente pelo público, ao invés de se submeter ao crivo de órgãos governamentais", analisou Gama, que pretende lançar "Voador" ainda neste primeiro semestre.
Mas afinal de contas, você sabe o que é crowdfunding?
"Crowdfunding é quando várias pessoas se identificam com o seu projeto ou ideia e resolvem apoiar financeiramente para que ele se realize", diz a descrição do Kickante, uma das diversas plataformas disponíveis no Brasil.
"Somos o ponto de encontro de uma crescente comunidade de pessoas interessadas em, juntas, contribuírem financeiramente para tirar do papel projetos de diversas categorias" , aponta o site do Catarse.
Confira algumas das plataformas de financiamento coletivo disponíveis no Brasil.
Já arrecadou mais de 5 milhões de reais para mais de 500 projetos em todo o país. O método usado para arrecadação é o tudo ou nada. O Catarse cobra 13% da quantia arrecadada caso o realizador alcance a meta.
As campanhas são nos modos tudo ou nada e flexível. Cobra 15% sobre a arrecadação em campanhas flexíveis que não tenham alcançado a meta ou 12% nos projetos bem-sucedidos.
Não recebe nenhuma comissão sobre o dinheiro arrecadado e gera receita através de parcerias, consultorias e doações.
O Juntos.com.vc é dedicado exclusivamente a ações sociais
Arrecada fundos em projetos ligados às causas dos animais. O serviço cobra 10% do valor arrecadado, mais a taxa do MoIP. Os recursos são repassados quando ao menos 50% da meta é atingida, caso contrário o dinheiro é devolvido.
Plataforma para levar shows a sua cidade, também utilizada em produtores e músicos interessados em viabilizar turnês e apresentações. Necessita que um valor mínimo seja arrecadado para que o evento aconteça, caso contrário o dinheiro é devolvido.