‘De Menor’, longa de Caru Alves é tão intrigante quanto doloroso

Paulo Henrique Silva/Hoje em Dia
Publicado em 04/09/2014 às 09:00.Atualizado em 18/11/2021 às 04:04.
 (Divuilgação)
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Falta um porquê em “De Menor”, longa-metragem de estreia da diretora Caru Alves de Souza e cartaz a partir de hoje nos cinemas. As razões para uma advogada (Rita Batata) que trabalha na defesa de menores infratores ter um irmão (Giovanni Gallo) tão problemático quanto seus clientes jamais é explicada.

Podemos conjecturar várias situações sobre um passado que surge de relance numa determinada cena, quando Helena lê o testamento dos pais para seu irmão mais novo, Caio. Estão sozinhos numa casa em que, logo na primeira cena, aparece como primeira informação para o espectador a placa “Vende-se”.

Há pequenos sinais de um desequilíbrio que o roteiro faz questão de torná-los quase imperceptíveis, aumentando os ecos em torno das perguntas que teimam em não serem respondidas. É o que faz desse filme tão intrigante quanto doloroso, mostrando que a questão do menor não tem uma solução pronta.

Caru (filha dos diretores Tata Amaral e Francisco César Filho) transporta o tema para o universo desses personagens, sem reduzi-lo ou explicá-lo. A distância que se aumenta silenciosamente entre os dois irmãos também amplia as muitas interrogações na forma de enfrentá-lo.

A narrativa acompanha de perto os passos de Helena, principalmente quando ela está diante de um juiz, fazendo-nos compreender que cada caso é único e impossível de estabelecer um culpado. Seremos compelidos a “participar” de muitos deles com nosso veredito.

Até o momento em que “De Menor” nos confronta, ao vermos Caio sentado no lugar dos infratores. Um garoto loiro, branco e com boas notas na escola. Por que deveria ter um tratamento diferenciado daqueles que não têm condições? É a pergunta que o juiz interpretado por Caco Ciocler impõe.

Ao se concentrar em Helena, privando-nos de qualquer cena em que Caio esteja sozinho, o filme compartilha o mesmo impacto e dúvida que passam a cercar a irmã, que, por sua profissão, deveria ser um espelho para o jovem. É como se quisesse enfatizar que existem pontos mais profundos que escapam a uma interpretação imediata.

A mesma sequência de abertura, quando Helena percorre os corredores de sua casa até encontrar Caio (que, num primeiro instante, é propositadamente confundido com o namorado dela), é retomada mais tarde, agora nos cômodos superprotegidos de uma instituição para menor. E esse mesmo Caio continua sendo um mistério para nós.

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