
Não é só na moda, que a todo momento parece resgatar estilos de décadas passadas. De acordo com André Antônio, diretor de “A Seita”, um dos destaques da seleção mineira da Mostra do Filme Livre, com início amanhã, a política é um exemplo claro do que ele define como “história cíclica”.
“Nós apenas achamos que estamos andando pra frente, progredindo, mas na verdade algumas coisas acabam se repetindo, como sintomas. Falar de história cíclica agora é engraçado, com o Brasil tendo sofrido, novamente, mais um golpe de Estado”, registra o realizador pernambucano.
A trama de “A Seita” é, por sinal, recheada de elementos políticos, a partir de um protagonista pertencente à elite que perambula por Recife resgatando memórias e se divertindo com vários homens, até descobrir uma misteriosa seita que pretende restituir o que aboliram da humanidade: os seus sonhos.
“O cinema brasileiro possui uma tradição fortíssima de cinema engajado, politizado e revolucionário. A mim me interessa muito uma ‘política da forma’ mais do que necessariamente fazer filmes sobre ‘assuntos” obviamente políticos”, pondera André, mas interessado em surpreender a plateia.
O diretor se diz fascinado por alguém que entrar numa sessão de cinema esperando ver “mais um filme” e encontrar uma experiência audiovisual completamente diferente, a ponto de “deixá-lo inspirado a mudar seu modo de enxergar tanto as coisas do mundo quanto o próprio cinema”.
Ambientado numa Recife de 2040, o filme se apropria da “decadência” da capital pernambucana para criar sua atmosfera futurista, a partir, principalmente, da especulação imobiliária, tema de várias produções recentes do Estado, como “Som ao Redor”, primeiro longa de ficção de Kleber Mendonça Filho.
“Quem mora lá tem a impressão de que tudo o que é mais bonito e interessante em termos de arquitetura e vida urbana está frequentemente sendo destruído e arruinado, com conivência da classe política. É realmente uma sensação de distopia, sensação que eu quis colocar no filme”, registrar André.
Embora filho de uma família da elite econômica brasileira, o protagonista possui uma sensibilidade completamente diferente dessa classe. Tanto que ele, frisa André, não aguenta mais o tédio que é viver nas Colônias Espaciais (para onde os ricos migraram) e volta para sua velha casa em Recife.
“Ele prefere estar num lugar decadente e em ruínas a ter que ficar cercado por aquelas pessoas, para o protagonista, são medíocres. Ele é um personagem de gosto sofisticado, raro e afeminado – ou seja, o exato oposto do que um homem ‘representativo” da elite”, destaca.
Com exibições gratuitas a partir das 14h, a Mostra do Filme Livre prosseguirá até 13 de junho, no CCBB, com a apresentação de mais de 30 longas, debates e uma oficina de GIF. Programação completa em mostralivre.com.