Em busca do autoconhecimento

Paulo Henrique Silva/Hoje em Dia
Publicado em 13/08/2014 às 07:36.Atualizado em 18/11/2021 às 03:46.
 (Divulgação)
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Ricardo Cançado era um dos primeiros a dizer que “não precisava disso” quando alguém lhe indicava um livro de autoajuda. “Achava que era uma bobagem”, recorda quem hoje não tem vergonha de afirmar que esse tipo de literatura – que se consolidou nos últimos 20 anos na lista dos mais procurados, transformando seus autores em grandes gurus da sociedade atual – virou um vício em sua vida.

Por trás desses best-sellers estão histórias de vida e receitas para as pessoas deixarem a tristeza de lado, ganharem autoconfiança e vencerem na vida. Um dos maiores nomes desse segmento é o brasileiro Paulo Coelho, cuja trajetória é esmiuçada na cinebiografia “Não Pare na Pista”, que estreia nesta quinta-feira (14) buscando o mesmo número de espectadores que fizeram do “mago” o único escritor vivo mais traduzido que William Shakespeare.

Protagonizado por Júlio Andrade, o filme detalha os vários percalços que Coelho passou, da falta de apoio dos pais ao ceticismo dos editores, até trilhar o caminho de Santiago de Compostela, na Espanha, e perceber que precisava contar sua experiência mágica no papel. Não é muito diferente de outros autores, como Deepak Chopra e Roberto Shinyashiki, que, lá no fundo, pregam a mesma coisa: superação.

“É você amanhã querer ser melhor do que é hoje”, sintetiza Cançado, distribuidor independente de uma empresa de marketing multinível. “A primeira coisa para aquelas lições fazerem efeito é estar disposto à mudança. Se não tiver, poderá ler dez livros que não conseguirá absorver nada. Não adianta ler por ler. Você tem que interpretar, estudar e pôr em prática”, registra.

Efeito psicológico

Psicóloga e professora na faculdade Newton Paiva, Sylvia Flores observa que os livros de autoajuda, “na pior das hipóteses, levarão um certo conforto aos seus leitores”. Para ela, essas publicações se sustentam em estratégias para as pessoas se conhecerem. “Só de ter o livro, já há um efeito psicológico. Não é raro alguém dizer, após duas, três páginas, que está se sentindo melhor”, assinala.

Sylvia considera essa busca de autoconhecimento na literatura uma etapa importante para a mudança. “Quando você dá um passo, já não está no mesmo lugar, não é verdade? É uma boa frase de livro de autoajuda”, diverte-se a psicóloga.

O passo seguinte é querer “algo mais profundo”, com a ajuda de um profissional. “Você pode modificar o seu saber, mas pode acontecer de não conseguir mudar o comportamento”.

Por outro lado, ela conheceu exemplos de quem conseguiu se disciplinar e modificar suas atitudes com livros que Cançado prefere definir como “de desenvolvimento pessoal”. O distribuidor não gosta do termo “autoajuda”. A diferença, segundo ele, está no fato de que “autoajuda” se limita a querer “se ajudar” unicamente. “E não é só isso: é também saber ajudar o outro a se relacionar com ele”, define.

O segredo é a persistência

Ricardo Cançado lembra que era impaciente e reclamão antes de começar a ler os livros de autoajuda. “Hoje sou outra pessoa, entendendo melhor o ser humano. O que acontecia antes era que muitas vezes focava num problema e esquecia o principal: a sua solução. A partir daí não vemos mais um problema e sim um obstáculo”, salienta.

Com uma estante formada por mais de 30 livros do segmento, o distribuidor é fã de Augusto Cury e Roberto Shinyashiki, por serem mais voltados ao desenvolvimento pessoal, trabalhando aspectos como liderança e administração. Com uma coleção completa de obras de Paulo Coelho em casa, confessa que suas histórias já não atrai tanto como antes.

“Você passa a selecionar as leituras, percebendo que muitos autores não são criadores, mas sim copiadores”, analisa Cançado, que tem como uma de suas obras de cabeceira “O Monge e o Executivo”, de James C. Hunter, que trabalha as diferenças entre o líder e o autoritário. “O líder é aquele que faz e mostra, inspirando as pessoas que estão à sua volta”.

A psicóloga Sylvia Flores enxerga o outro lado da moeda de quem toma os livros de autoajuda como um princípio básico de sua vida. Em seu consultório, pacientes acabaram construindo um personagem muito defensivo, que recorrem a frases de efeito para explicar o que está se passando e resistir à terapia. “Racionalizam demais e não mudam”, sublinha.

Eletrochoque

No filme “Não Pare na Pista”, Paulo Coelho é internado numa clínica psiquiátrica à força por seus pais, quando era adolescente, sofrendo sessões de eletrochoque devido ao seu jeito tímido e rebelde, que um médico suspeitou ser traços de uma homossexualidade reprimida.

Sua trajetória na telona pode ser resumida numa palavra: persistência. “É a trajetória de um herói ou de um anti-herói, dependendo do ponto de vista, porque também mostramos os defeitos do Paulo. Ele toma algumas ações bem questionáveis. Mas ele soube vencer esses obstáculos com muita obstinação. É como diz a música que ele escreveu com Raul Seixas: tente outra vez!”, observa o diretor Daniel Augusto.

Para pôr o filme na tela, os produtores tiveram que pedir autorização a Paulo Coelho. “Infelizmente, o Brasil tem essa lei arcaica que nos obriga a isso, mas o Paulo nos deu grande liberdade, afirmando que podíamos fazer o que quiséssemos. Quando viu o filme, ficou muito tocado, chorando em vários momentos”, relata o cineasta.

Careca e grisalho


O autor não escondeu a estranheza ao ver o ator Júlio Andrade maquiado como um Paulo Coelho de hoje, um pouco careca, com cabelos grisalhos amarrados atrás da cabeça. Inicialmente, ele tinha pensado em três atores diferentes para percorrer a trajetória de Coelho da juventude à fase atual.

Acabou ficando com dois – quem faz o autor na adolescência é o irmão de Júlio, Ravel Andrade. A terceira fase foi resolvida com maquiagem, realizada por uma empresa especializada da Espanha, ganhadora do Oscar por “O Labirinto do Fauno” (2006).

MINIENTREVISTA

Júlio Andrade
Ator

Após uma interpretação tão elogiada como Gonzaguinha, em “Gonzaga – De Pai pra Filho”, você não temeu fazer, num curto espaço de tempo, outro ícone da cultura brasileira?
Tive um feedback impressionante com o Gonzaguinha, em que a própria família do cantor falava das semelhanças. Com o Paulo Coelho, havia o risco de seguir um mesmo padrão. Mas o preparador de elenco, o argentino Eduardo Milewicz, me tirou esse peso. Encontrei com o Paulo em Genebra, um mês e meio antes de filmar, e foi bacana por poder conhecer a intimidade dele, fora da mídia.

Nesse encontro, algo lhe chamou a atenção para a composição do personagem, como um gesto característico dele?
Se peguei, não me lembro. É uma cilada ficar pensando na mão, num trejeito... O mais importante é o caminho que você quer levar em cena.

Em comum com “Gonzaga”, o filme também foca a conturbada relação entre pai e filho, não é verdade?
Os dois (personagens) fizeram a história do nosso país, viveram numa época de anseios políticos e eram meio transgressores. Apesar dessas semelhanças, eram muito diferentes.

Usar maquiagem para parecer mais velho foi seu maior desafio para o papel?
Sim, confesso que até hoje não consigo me ver ali. Você tem que se expressar apenas com o olhar e é muito difícil fazer isso sob aquela máscara.

E como foi trabalhar com seu irmão, que faz seu personagem na adolescência?
O maior presente que recebi foi essa reaproxi-mação com meu irmão. Desde pequeno percebia nele essa vocação para atuar e sabia que, mais cedo ou mais tarde, essa chance iria acontecer. Creio que esse filme representará para ele o que foi “Cão Sem Dono” (de Beto Brant) para mim. Ele me trouxe coisas legais, que acabam sendo esquecidas em minha profissão, que é esse frescor em cena.








 

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