Em Gramado, filme mostra miséria 'macabra' na Colômbia de García Márquez

Paulo Henrique Silva
Publicado em 11/08/2015 às 20:13.Atualizado em 17/11/2021 às 01:18.
 (Hoje em Dia)
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GRAMADO – De origem colombiana como Gabriel García Márquez, o filme “Ella” carrega elementos caros à obra do escritor de “Cem Anos de Solidão” e “O Amor nos Tempos do Cólera”, como o realismo fantástico e a pegada sócio-política, além de envolver vários personagens numa situação macabra, que surge como uma metáfora da realidade vivida por aquela comunidade.

Exibida na noite de segunda-feira (10), na 43ª edição do Festival de Cinema de Gramado, a produção dirigida por Libia Stella Gómez faz de um bairro do subúrbio de Bogotá uma espécie de Macondo (cidade fictícia que aparece em vários livros de Márquez) às avessas, com a miséria no lugar da prosperidade, mas que igualmente parece prender seus habitantes ao lugar.

No filme, o bairro Cidade Bolívar vai consumindo lentamente as pessoas até que elas percam a sua importância como indivíduos. É como uma cidade-fantasma, povoada de mortos-vivos, como nos revela a primeira sequência, em que Alcides, de rosto impassível, perambula pelo bairro com sua carroça de material velho. Sua esposa morre e, pobre, não tem como enterrá-la, levando para lá e para cá o corpo.

Há uma garotinha, que sofre abusos do pai violento, mas que tem uma feição de anjo, sempre sorridente e disposta a ajudar, num contraste com a podridão do lugar, ressaltada pela fotografia em preto e branco bem contrastada. Em alguns momentos uma cor surge em pequenos detalhes, como em “A Lista de Schindler”, para aumentar seu caráter fantástico, sobrenatural.

Libia Stella sublinha a questão social não só pela fotografia, mas também na maneira de filmar, com cenas fortes, em ângulos diferentes, muitos deles fechados. O som também ganha maior potência, como se esmagasse os personagens, indefesos diante de uma realidade que aparentemente não tem solução. E esta é uma palavra que seus moradores não conhecem, escolhendo apenas sobreviver.

A vida como ela é

No debate que aconteceu nesta terça-feira (11), em Gramado, a atriz Reina Sánchez destacou que o cenário mostrado em “Ella” não é diferente do que se vive em Cidade Bolívar, o bairro mais miserável da América Latina, segundo ela. “Ali reúne todas as consequências da violência existente no país”, observa Reina, que interpreta a mulher morta. “Foi como se tivesse vendo o meu próprio enterro”.

Seu marido é vivido pelo veterano Humberto Arango, que estava hospitalizado quando recebeu o convite para rodar o filme. Ainda enfermo, lembra como foi difícil realizar as andanças com sua carroça, considerando o último dia de filmagem como uma vitória pessoal. Muitos outros atores são amadores, moradores do bairro. É o caso de Deisy Marulanda, intérprete da angelical Guisella.

Reina Sánchez revela que Deisy hoje estuda teatro graças, curiosamente, ao ator que faz o seu pai no filme, Andrés Castañeda, que tem investido dinheiro do próprio bolso para ajudar a menina. “Ella” estreou nos cinemas colombianos em junho passado, mas não teve boa carreira, devido ao tema difícil e, principalmente, pela má vontade com os filmes de arte.

 

Confira o trailer da forte "película" a seguir:

 

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