
O bairro de Copacabana mora no imaginário da maioria dos brasileiros. Eternizado em cenas de novelas e famoso pelo calçadão, é quase um personagem do novo livro de Edney Silvestre, “Welcome to Copacabana & Outras Histórias” (Ed. Record). Nele, o escritor viaja para além do Rio de Janeiro, visita até mesmo outras galáxias e retorna a Copacabana, transformando o bairro em um verdadeiro microcosmo da vida humana, assustando pela verossimilhança de seus personagens, profundamente perdidos, em busca de um lugar.
As 350 páginas se formam com uma literatura de personagem rica e provocativa, que toca, sem ferir, em angústias, medos e desejos. Edney alça estes elementos ao tratar, com a trivialidade do gênero, narrativas tão densas. É fácil se emocionar, como no conto “Bem que Olhava o Trem”, menino que se vê perdido nas ruas e sofre com abuso sexual, o que nos leva a flertar com uma subjetividade paranormal através das palavras de Edney.
Copacabana é como aquela pessoa aparentemente frívola que todos só vêm rindo e se divertindo, mas que ao se ver sozinha, mergulha em turvas águas.
Num instante, se está em Copacabana, no conto que abre o livro, acompanhando as reviravoltas de Regina, uma viúva abandonada pelos filhos, e que encerra a seleção. N’outro estamos em Nova York convivendo com as angústias do michê Vinicius, que briga com as convicções morais que seu trabalho joga por terra. A dimensão da literatura apresentada nesta obra tange muito mais a questões humanas tão bem delineadas do que à estrutura física que qualquer bairro possa oferecer, mas passa também pelo imaginário que se cria quando se forma um mundo à parte dentro de uma só cidade.
Entrevista
Como é seu processo criativo?
Longo, cheio de reviravoltas, com tempo para refletir e deixar que as personagens fluam e “falem” comigo. Há muito de pessoal em vários textos, com homenagens diretas a pessoas queridas, como em “Aquela Menina” e “depois da Páscoa”, por exemplo, ambos surgidos depois da morte de duas pessoas a quem eu queria muito bem.
Você tem alguma influência direta?
Não saberia dizer. Lendo o que escrevo não vejo ecos de ninguém em particular. Mas o grande Raimundo Carrero disse, recentemente, que sentia um tanto de Balzac na minha obra. Luciana Villas-Boas, minha agente, cita Philip Roth para me situar na tradição romanesca de mesclar história de pessoa com História do país.
Edney tem um “lugar aonde chegar” como escritor? Um ideal que persegue?
Tem um lugar, tenho um ideal: quero chegar sempre mais perto de quem me lê, quero falar do Brasil através dos brasileiros, quero falar do que é humano, imperfeito, complexo, universal, através de criaturas de Copacabana, Tiradentes, Nova York, São Paulo, onde quer que minha imaginação – e em alguns casos minhas vivência e experiência – me conduzam.
Existe em você um pouco destes personagens?
Um amigo que me conhece há mais de vinte anos, depois de ler “Se Eu Fechar os Olhos Agora” e “A Felicidade É Fácil”, me disse que nunca imaginara que houvesse tanta perversidade dentro de mim. Os sentimentos do torturador Antonio, de “Vidas Provisórias” ou da violentada Mara de “A Felicidade É Fácil”, ou do michê Silvio de “Welcome to Copacabana”, não são estrangeiros para mim. “Nada do que é humano me é estrangeiro”.
Lendo o que escrevo não vejo ecos de ninguém em particular. Mas o grande Raimundo Carrero disse, recentemente, que sentia um tanto de Balzac na minha obra.
Sua escrita transmite clareza nas palavras e passa a impressão que as frases fluem sem esforço, você apenas se senta e escreve. Como é seu processo criativo?
Longo, cheio de reviravoltas, com tempo para refletir e deixar que as personagens fluam e “falem” comigo. Comecei a anotar para compor “Welcome to Copacabana & outras histórias” há quase quatro anos, quanto ainda estava editando “Boa noite a todos”. Há muito de pessoal em vários textos, com homenagens diretas a pessoas queridas, como em “Aquela menina” e “ Depois da Páscoa”, por exemplo, ambos surgidos depois da morte de duas pessoas a quem eu queria muito bem. Alguns contos levaram muito mais tempo do que jamais imaginaria, como o que está nas pouco mais de 5 páginas, “Ben que olhava o trem”. Foi dificílimo encontrar a linguagem certa para traduzir a cabeça e o pensamento de um menino à margem da sociedade e do raciocínio ditos “normais”.
Você tem aquele escritor ou escritora específicos aos quais aponta como uma influência direta, ou aponta a influência para o conjunto do que leu?
Não saberia dizer. Lendo o que escrevo não vejo ecos de ninguém em particular. Mas o grande Raimundo Carrero disse, recentemente, que sentia um tanto de Balzac na minha obra. Luciana Villas-Boas, hoje minha agente, mas que foi minha editora no início da minha carreira literária, sempre cita Philip Roth para me situar na tradição romanesca de mesclar história pessoa com História do país.
tem um "lugar aonde chegar" como escritor? Um ideal que persegue?
Tem um lugar, tenho um ideal: quero chegar sempre mais perto de quem me lê, quero falar do Brasil através dos brasileiros, quero falar do que é humano, imperfeito, complexo, universal, através de criaturas de Copacabana, Tiradentes, Nova York, São Paulo, onde quer que minha imaginação - e em alguns casos minhas vivência e experiência - me conduzam.
Existe em você um pouco destes personagens?
Um amigo que me conhece há mais de vinte anos, depois de ler “Se eu fechar os olhos agora” e “A felicidade é fácil”, me disse que nunca imaginara que houvesse tanta perversidade dentro de mim. Os sentimentos do torturador Antonio, de “Vidas provisórias” ou da violentada Mara de “A felicidade é fácil”, ou do michê Silvio de “Welcome to Copacabana”, não são estrangeiros para mim. “Nada do que é humano me é estrangeiro"
É fácil imaginar, ao ler o livro, tudo se passando em "sombras", por mais que se passe em Copacabana. O bairro é, além de bucólico, melancólico?
Copacabana é como aquela pessoa aparentemente frívola que todos só vêm rindo e se divertindo, mas que ao se ver sozinha consigo mesma, mergulha em turvas águas profundas. É quando percebe sua solidão, seu isolamento, sua, como você diz, melancolia. Por isso mesmo usei Drummond como epígrafe: “Nesta cidade do Rio, de dois milhões de habitantes, estou sozinho no quarto, estou sozinho na América”.
Regina tem a vida alterada, o michê que vai Nova York tem a vida alterada, a humanidade tem a vida alterada em outra galáxia, Madame K altera a vida de tantas pessoas (que flerte maravilhoso com a realidade neste conto) ... A literatura altera a vida de quem a ela tem acesso? O livro trata de como somos mutantes?
Quando adolescente, em Valença, e me sentia estranho, infeliz, apartado do mundo onde todos à minha volta pareciam tão ajustados e, por que não dizer, felizes, fui tirado do fundo do poço por um livro: “Tonio Kroeger”, de Thomas Mann. Sei, portanto, a força que a literatura tem de transformar as vidas, ao iluminar ideias. Acredito nisso. Por isso, talvez, escreva.
Tem um lugar, tenho um ideal: quero chegar sempre mais perto de quem me lê, quero falar do Brasil através dos brasileiros, quero falar do que é humano, imperfeito, complexo, universal
Ao mergulhar nesta literatura de personagens você cria vidas, retrata espaços como microcosmos, e concede verossimilhança até às mais absurdas situações. As ruas te inspiram, tem ali algo do que você viu, do que leu, do que viveu como jornalista?
Vivo nas ruas como cidadão que sou, como repórter e como escritor. Tenho os olhos sempre bem abertos (ao contrário do título do meu romance de estreia). Tenho sido, aqui e no exterior, testemunha do meu tempo, das transformações, dos horrores e das belezas que o mundo joga em nossa cara. Acredito no escritor de ficção atento à realidade, sempre tentando capta-la e transforma-la em literatura.
A violência está presente, o sexo está presente, o amor está presente. São contos tão crus que nos tocam. Como você se relaciona com a sua própria obra?
O amor, o sexo, a violência nossa de cada dia estão aí, particularmente no Brasil, quer as pessoas queiram ou não queiram ver. A ignorância é uma bênção, certo, mas a consciência da realidade é que pode ajudar a transformar vidas. A sua, a minha, a de todos. E como precisamos disso, aqui no Brasil!
Sempre houve e sempre haverá escrita para o mercado – o que eu me recuso a chamar de literatura. E é bom que haja. Forma leitores. No Brasil vivemos um momento extraordinário de grande quantidade e qualidade em escritores de gerações diferentes. Cita, brevemente, Estevão Azevedo, Luiz Ruffato, Alberto Mussa, Nélida Piñon, Milton Hatoun, Raduan Nassar, Ligia Fagundes Telles. Muitos. Nesta nossa época, em nenhum país do mundo se faz uma literatura tão interessante, tão diversa, tão original, quanto no Brasil. Nosso Prêmio Nobel está a caminho.