Escritor e jornalista Afonso Borges estreia como cronista do Hoje em Dia

Hoje em Dia
Publicado em 11/08/2014 às 08:20.Atualizado em 18/11/2021 às 03:44.
 (Editoria de Arte)
(Editoria de Arte)
GAZA E OS OLHOS DE VIDRO DE LUCAS
(ou a cegueira de quem enxerga e não vê)
 
Afonso Borges*
 
Lucas hoje tem olhos de vidro. Lembra o tempo que andava pelas ruas lendo livros, trombando nas pessoas. O tempo que lia sentado no meio-fio, de noite, à luz dos postes, esperando ônibus. Depois, lia durante todo o trajeto. Hoje seus olhos ardem muito no final do dia. Como pimenta. 
 
Lucas hoje lê com seus olhos de vidro outros vidros: a tela do computador, do celular, do tablet, do Ipad. A TV substituiu a emoção do romance. Na TV ele encontra o hormônio delirante da imaginação que desistiu, há muito, de buscar no livro. Seus olhos e sua alma são de vidro, hoje. Não há janelas. 
 
De vidro estão, e são, os óculos e os olhos de Lucas. Mas estouram as bombas nos túneis de Gaza. Os túneis escuros de esperança e ódio; de planos e desenganos. Terríveis, as fotos das crianças destroçadas decoram os vidros que os olhos de Lucas vêem. Mas tudo se quebra. Ninguém está preparado para isso. 
 
Sem paz, os olhos de Lucas experimentam o olhar triste do mundo. O olhar que as centenas de livros lidos não explicam. O olho de vidro que vê fotos e imagens, no olho de vidro da mídia. Sem paz alguma, sem luz, cego. A cegueira torpe de quem enxerga e não vê. 
 
Os olhos de Lucas coçam como pimenta ao final do dia. O olhar de Lucas se vê nos outros olhares e se desfaz na ausência de sentimentos. A segunda-feira nasce alucinadamente azul na luz de agosto e o vidro continua, perpétuo, a moldar as sensações. Afastando os sentimentos. 
 
De súbito, Lucas se vê sentado no meio-fio, lendo livros, no ponto de ônibus, à meia-noite. Ninguém por perto, só o ruídos dos carros passando. Havia paz naquele encontro entre olhos e papel. E o coração aos pulos, de linha em linha. Como um raio, desceu a cena de Raskolnikoff vindo por trás da velha usurária, em “Crime e Castigo”, de Dostoiéviski. Ainda não havia vidros. 
 
Os olhos de vidro de Lucas não são cegos. Só selecionam sentimentos. Ou permitem que o vidro, híbrido, orgânico, faça o serviço. Tem a mente segura e equilibrada no olho de vidro do celular, agora. Ontem também. E amanhã, ao acordar, será o toque do aparelho sua primeira sensação. Seu primeiro pensamento após o sonho. 
 
A realidade, agora, passa ter olhos de vidro. Lucas sai à rua e assiste, atônito, um assalto no restaurante que janta. Gritos, tiros, sangue à sua frente, o susto imenso de uma morte. Sim, está acontecendo, é real, ele pensa, imerso em vidro. O corpo de Lucas, onde habita os seus olhos de vidro, não se mexeu. Assistiu, televisivo, os acontecimentos terríveis. 
 
Lucas pensou em Gaza. Imaginou os túneis. Engatinhou por eles, até que uma bomba destruísse tudo. Viu seu corpo ser destroçado, soterrado. Sentiu tudo, em vidro. Seus olhos começaram a queimar, como pimenta. Tirou os óculos, de vidro, cansados. Chega, pensou – e desligou o celular.
 
 
*Afonso Borges é jornalista, escritor, produtor-cultural e escreve crônicas para o Jornal Hoje em Dia às segundas-feiras.
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