Movido por perdas muito próximas (do pai e de uma tia), Cristiano Peixoto se preparou para realizar um espetáculo sobre a morte. Tocar de outra maneira um assunto que as pessoas encaram (quase) sempre de um modo bastante pesado. O propósito se cumpriu: “Adeusàmorte” entra em cartaz esta sexta, no Galpão Cine Horto.
Antes de buscar alguém para concretizar a dramaturgia, Cristiano recorreu a dois livros: “Intermitências da Morte”, do português e Nobel de Literatura, José Saramago (1922/2010), e “Fragilidade”, do escritor e roteirista francês Jean-Claude Carrière. Escrito por Lucienne Guedes, ex-atriz e dramaturga do grupo Teatro Vertigem (SP), o texto contempla subsídios de ambos, e situações trazidas pela equipe de criação. Obviamente, lapidadas.
Em cena, Cristiane Andrade, Leandro Lara, Luísa Bahia e Michelle Barreto, ex-alunos de Cristiano no curso do Cefar. E, como o sobrenome denuncia, Lucas da Cunha Pará falaria o português irretocável da sua terra, Belém, e ainda cursa o TU. Viria deles parte da luminosidade do espetáculo. “São muito generosos, compraram a ideia e complementam o que o colega tem de mais frágil ou mais forte”, garante o diretor.
Indicada por Luah Guimarães, de “O Idiota”, Lucienne Guedes pesquisaria a narrativa no teatro. A linguagem teria casado perfeitamente com a oralidade dos textos de Saramago. Com as contribuições dos atores e da pesquisa sobre a morte que colheram com moradores de Santa Tereza, onde rolaram os ensaios.
Batalha
Discípulo da escola russa de Meyerhold e Stanislavski, Cristiano se diz “muito satisfeito com alguns lugares” que o trabalho atingiu. Seria um diretor-pedagogo, nem um pouco autoritário. Desenvolveria jogos que favorecem o ator a descobrir o que pretende nas suas intervenções. A descobrirem juntos, enfim.
O trabalho teria mudado a impressão de Cristiano: estaria mais propenso a não negar a morte, a entender que perdas, dores, fazem parte da vida. Não seriam uma derrota, só mais uma batalha. Morrer, afinal, é inevitável e os esforços da ciência, da cosmética, muitas vezes privam as pessoas do contato com seus afetos. Quando não as despersonificam ou apagam suas subjetividades.