
Aos 13 anos, a estudante Isadora Faber enfrentou o mundo. Naquela época, ela criou um perfil no Facebook em que denunciava a degradação da escola pública em que estudava, em Florianópolis. Agora, aos 14 e sem medo, como ela mesma sugere na foto ao lado, ela volta a encarar a massa, sempre na base do verbo corajoso. E desta vez, ela se vale de um suporte mais tradicional, onde conta a versão dela dos fatos: o livro.
Em “Diário de Classe: A Verdade” (Editora Gutenberg), a estudante catarinense conta sua vida antes das denúncias e mostra a história que viveu ao mobilizar meio mundo com seu perfil na rede social, hoje com mais de 600 mil fãs.
Arrependimentos? “Não me arrependo. Hoje sou convidada para dar palestras, entrevistas, participar de debates, sem contar que consegui reformar toda a minha escola. Porém, sofri represálias dos funcionários, fui ameaçada e até os meus pais foram processados por alguns professores”, diz, ao Hoje em Dia.
Assim como a doce e destemida estudante de “Floripa”, vários adeptos exclusivos do meio virtual voltam-se para o universo literário de um jeito tradicional. Prova de que o papel, apesar do destino tido como findo, ainda é terreno respeitável para muitos mostrarem, registrarem e consolidarem as suas ideias.
‘Não sei como essa menina aguentou.
O caso da estudante Isadora Faber inspirou a outros estudantes e suas famílias e também a professores a denunciarem as situações precárias de outras escolas. A demanda foi tamanha que a família, inspirada por outra ideia da adolescente, em março deste ano, fundou a “ONG Isadora Faber”. A missão? Receber denúncias do ambiente escolar.
“Quando minha filha disse que faria o perfil no Facebook, não impedi. Mas sempre fui muito pé no chão e esclareci a ela sobre as consequências que isso poderia ter. Nunca permiti que elas (Isadora e as duas irmãs de 26 e 17 anos) acreditassem num castelo de Cinderela”, explica Mel Faber, 47 anos, mãe da jovem webativista.
Assim, entre a possibilidade de a denúncia não dar em nada e cair na boca do povo, Isadora colocou em prática a ideia dela. A mãe diz que a filha sempre foi boa aluna e, na base do “deveres cumpridos, direitos exigidos” é que o o aval materno se deu.
“Depois das notícias, tivemos que levá-la e buscá-la na escola, ela recebia ameaças de alunas, campanha contra vinda do corpo docente, jogaram pedra e chegamos a ser chamados numa delegacia. Isadora ficou muito só. Não sei como essa menina aguentou. Mas ela conseguiu toda reforma do colégio em 15 dias. É impressionante o que fazem para calar as pessoas”, lembra Mel.
A ONG que nasce vem para concretizar a habilidade de Isadora para o engajamento em causas sociais.
“Netoativismo”
Mês que vem, chega às livrarias pela Editora Belas-Letras o livro “Quem, Eu?”, do gaúcho Fernando Aguzzoli. Ele largou a faculdade de Filosofia para cuidar da avó, diagnosticada com Alzheimer, e postou o processo de convivência com ela no perfil facebook.com/vovonilva. O livro traz ternas histórias descritas por ele na rede social. Uma lição para conviver com a perda da memória e o aumento da dependência de um idoso nestas condições. Nilva de Lourdes Aguzzolli, a avó, morreu em dezembro do ano passado. O perfil em homenagem a ela ainda está no ar, curtido por mais de 55 mil pessoas.
Blog chato, aula chata e uma pérola germano-brasileira por R$ 7
Como se não bastassem dezenas de editoras conseguirem juntar milhões nos bolsos ao publicarem “zilhões” de livros de autoajuda, blogs também dão uma forcinha para estas produções.
Assim, chega às livrarias “Um Sorriso ou Dois – Para Mulheres que Querem Mais” (Benvirá/Editora Saraiva), livro do publicitário, roteirista e, obviamente, blogueiro Frederico Elboni.
Paulista radicado na terra de Isadora – a menina do “Diário de Classe” – Elboni mantém o blog “Entenda os Homens”. Nele, fala o que pensa da vida, como se fosse um porta-voz do seu gênero. Haja pretensão. Clichês sobram. E, como quem não quer nada, reforça o milenar impulso de subserviência feminino.
Claro que todo este neo-machismo passa despercebido graças à linguagem bem-humorada de um blogueiro “fofo”. Veja frases dos posts: “Para lembrar como o amor é simples”; “Fracassos pessoais são inevitáveis. Ninguém vence sempre, é verdade”. Profundo como um pires.
A redenção da chatice
Recentemente, a blogueira e advogada Cláudia Rocha Franco Lopes, de Campo Grande (MS), também deu um “corpo de papel” à criação virtual dela. “Entendeu Direito ou quer que desenhe?” nome do blog (entendeudireito.blogspot.com.br) criado em 2011 e do livro. Ambos voltados aos leitores da área jurídica.
Na faculdade, aulas tidas como chatas viravam coloridos organogramas e mapas explicativos nas mãos de Claudia. Os colegas, seduzidos pela proposta de estudo dela, pediam cópias.
Para facilitar a distribuição, a estudante passou a usar o e-mail. E, em setembro de 2011, criou o blog “Entendeu Direito ou quer que desenhe?”. Resultado: bombaram as visualizações.
Livro, sim, mas digital
Com tom intimista e delicadeza, desde 2009, a fotógrafa e escritora Adelaide Ivánova, brasileira residente em Berlim, abastece seu vodcabarata.blogspot.com.br. Para consolidar as publicações, ela lança “Polaróides – E Negativos das Mesmas Imagens”. Mais um retorno ao papel? Nem tanto. A publicação está sendo feita pela editora de e-books www.cesarea.com.br.
“O ambiente virtual não tem limitação. Deixa o livro mais barato e aproxima leitores. A limitação está mais no fetiche ligado ao objeto livro, e ao colecionismo, ou ao gosto de estante cheia”, diz ela.
A decisão para lançar o livro veio de conversas com um amigo fotógrafo. “Ele diz que meus textos são fotográficos e minhas fotos, literatura”, conta.
Além da compilação de postagens, há também poemas inéditos. Tudo vendido por um preço simbólico de R$ 7. E vem na garantia: nada de clichês chatos.
Mini entrevista
O verbo afiado de Isadora Faber
O que lhe motivou a escrever o livro?
A ideia veio da editora. Pareceu uma chance indispensável pois eu adoro ler e, com o livro, sei que as pessoas podem entender minha história antes do “Diário de Classe”, conhecer a minha família e descobrir que é possível mudar a educação no Brasil.
Cite uma música, um livro, um programa de TV, um site e um lazer.
Gosto de rock, de Vera Loca (banda gaúcha), “Preto & Branco” (hit desta banda). Livro, gosto dos da Agatha Christie; o que mais gostei é “O Assassinato no Expresso do Oriente”. Na TV, adoro NCIS. Site, gosto muito do Facebook e adoro caminhar, ir ao cinema com os amigos.
E aos medrosos diria...
Não se preocupem com os erros e com tentar. Às vezes, conseguimos facilmente as coisas, mas, às vezes, temos que tentar de novo. Essa é uma parte do refrão da música “Preto & Branco” que falei: “Realidade é melhor assim/ Lutar pra ficar bem no fim/ Perder, ganhar, cair e levantar”.