Evandro Afonso Ferreira: entre uma abstração e outra, uma ideia

Elemara Duarte - Hoje em Dia
Publicado em 25/03/2014 às 07:30.Atualizado em 20/11/2021 às 16:50.
 (Hoje em Dia)
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O contista, romancista, colecionador de palavras fora do comum e livreiro Evandro Affonso Ferreira abre o projeto de encontro de leitores e escritores “Ofício da Palavra”, hoje, às 19h30, no Museu de Artes e Ofícios (Praça da Estação).
 
Mineiro de Araxá, ele vive em São Paulo há quatro décadas. Ferreira foi vencedor da categoria Romance do Prêmio Jabuti 2013 com “O Mendigo que Sabia de Cor os Adágios de Erasmo de Rotterdam” (Record), livro de parágrafo único distribuído em 120 poucas páginas.
 
Na obra – e aqui a nobreza da palavra “obra” é imprescindível – Ferreira mostra um mendigo que há dez anos faz o que lhe cabe como tal: vagar pelas ruas. Porém, esse vagar não é qualquer coisa. O mendigo procura poesia para aliviar sua vida miserável e espera. O quê? O retorno da amada.
 
Prêmio Jabuti, para que te quero?
Jabuti? Tapinhas nas costas e mais dois mil e poucos, com descontos.

Está preparando algum livro novo? É sobre Antígona mesmo?
Sim: chama-se “Os Piores Dias de Minha Vida Foram Todos”. Não é sobre Antígona, exatamente. A narradora, morrendo numa UTI, pede a ajuda dela, Antígona. Primeiro parágrafo do livro: Vem, luminosa Antígona, seja minha carpideira: eu também estou sendo enterrada viva.

O que significa “grogotó” que está em um de seus endereços de e-mail e titula seu primeiro livro?
Grogotó! – Agora é tarde, acabou-se. Conto de um alfaiate que está na UTI e percebe que não teve tempo nem mesmo para fazer o terno para o próprio velório. Grogotó é meu primeiro livro publicado. (São 73 contos pequenos, alguns com menos de 30 palavras, que trazem em si histórias inteiras, com desfechos inesperados, publicado quando Ferreira tinha 55 anos)

Como funcionam seus pensamentos?
Entre uma abstração e outra, surge uma ideia. Um pensamento digamos nada original: Homero, ou Platão, ou Shakespeare, ou Dante, ou Proust, ou Dostoiévski, ou Kant, ou Borges, ou santo Anselmo, ou Agostinho, certamente já pensaram tudo. Logo, meu pensamento é fatalmente genérico, se assim posso dizer.

Onde está o amor na literatura hoje?
Sei não. No meu livro, “O Mendigo que Sabia de Cor os Adágios de Erasmo de Rotterdam”, está em todas as páginas. Lamentavelmente, ou não, é o romance da espera inútil. Mas ele, narrador, fica dez anos na rua, enlouquecendo aos poucos, mendigo, vendo o amor perdido em tudo. Até no canto de um pássaro, ou no voo de um helicóptero, ou numa gigantesca bandeira que tremula sobre um prédio.
 
Já te chamaram de louco? Essas pessoas têm razão?
Convivo tempo todo com amigos cultos, eruditos. Não perderiam tempo com o óbvio, chamando-me de louco. 
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