
Até poderia ser mera coincidência, mas é preferível pensar que seja sinalizador de um período em que a preocupação com o outro suplante o individualismo que, para muitos, pauta a sociedade nos dias atuais. Vários eventos que vão se desenrolar nos próximos dias na capital mineira têm, como denominador comum, o vínculo com uma boa causa. Caso da exposição “Coisas da Nossa Cidade”, que o artista e designer Ho Chich Min abre nesta quinta-feira (9), no Restaurante 2015 (rua Levindo Lopes, 158, Savassi). A iniciativa é uma homenagem ao pai do artista, Ho Li Ching, que luta há mais de dez anos contra um câncer; e terá 50% do lucro arrecadado doado ao Instituto Mario Penna.
Já no sábado, Belo Horizonte recebe a primeira edição do “The Street Store”. O projeto, criado na África do Sul, vai ocupar a Afonso Pena, em frente ao Parque Municipal, das 8 às 18h, com uma proposta digna de aplausos: roupas e sapatos, devidamente separados por numerações, serão disponibilizados a moradores de rua. Simples assim – é só chegar e gostar.
“Tem de tudo, inclusive roupas de marca e com etiqueta. Tudo será destinado gratuitamente”, reforça Luciana Duarte, mentora da versão mineira da iniciativa, que espera atrair, no mínimo, 800 pessoas ao local.
A escritora Larissa Carvalho, por sua vez, irá doar, também no sábado, o valor da venda dos primeiros 50 exemplares de “Coração sem fim” para a protetora de animais Tecka Dias. A iniciativa é fruto da paixão da moça pelos bichos, que também viraram um dos temas abordados na obra. “Foi uma forma que encontrei para ajudar a causa, mas também para levar uma reflexão sobre a questão do abandono de animais”, afirma Larissa. O lançamento será na Galeria de Arte Paulo Campos Guimarães da Biblioteca Pública (Praça da Liberdade), das 9 às 12h.
Sábado e domingo, no CentoeQuatro, acontece o “BAU”, bazar de artes e utilidades, que, além de agregar mais de 50 marcas, promete oficinas, intervenções, jazz... e doações. O evento visa arrecadar materiais para o Projeto Assistencial Novo Céu, no Jardim Laguna, Contagem. Entre os produtos solicitados, fraldas geriátricas e leite em pó.
E ainda no sábado, no Espaço Folia, Olhos D’Água, tem o 12º Show & Buteco, em prol do Sistema Divina Providência. Os recursos arrecadados com o evento gastronômico irão para a manutenção do Lar dos Meninos e do Lar dos Idosos. O grupo Fundo de Quintal é uma das atrações da iniciativa que integra o rol de atitudes bacanas.
É só chegar e pegar: roupas e sapatos estarão disponíveis à população de rua
Em tradução literal “The Street Store” significa “a loja da rua”. E é essa a proposta da professora Luciana Duarte. “Fomos aos albergues e chamamos os moradores de rua. As roupas serão penduradas em cabides e os sapatos vão ficar separados por números. Eles poderão escolher o que quiserem, como se estivessem em uma loja. Os voluntários foram orientados a dar sugestões sobre a combinação das peças”.
A gênese do projeto localiza-se no ano passado, quando Luciana propôs a seus alunos (do curso de Engenharia de Produção, da Faculdade Kennedy) trazer, para BH, o “The Street Store”. O trabalho, que começou despretensiosamente, conta com 100 voluntários e 40 estudantes, além de centenas de doadores. Para a construção do “bazar” a céu aberto, foram montados seis pontos de arrecadação: na Kennedy, em Venda Nova; nos campus da UFMG, na Pampulha, e da Fumec, no Cruzeiro; e em lojas do Sion, Savassi e Santo Antônio. Mas, detalhe: doações poderão ser feitas ainda no dia do evento.
Art Déco
O pai de Ho Chich Min convive com um carcinoma adenoide cístico há nada menos que dez anos. Apesar de seu genitor possuir plano de saúde, a realidade de outros pacientes de câncer impactou o designer de tal forma que veio a ideia de ajudar com as belas obras que ele já desenvolvia há tempos. Na verdade, a história remonta ao conhecimento de um estrangeiro que veio à capital mineira apenas com o intuito de conhecer as edificações art déco da cidade.
“É interessante porque esse tipo de pôster é muito comum em várias cidades do mundo. Mas aqui, no Brasil, não é tão frequente”, diz ele, que passou a se interessar por este recorte arquitetônico. E veio outra surpresa: Ho percebeu que prédios emblemáticos do estilo muitas vezes passam despercebidos ao belo-horizontino, fenômeno comum em metrópoles, ante o frenesi do dia a dia. “Caso do Edifício Chagas Dória”.
O recorte do Carnaval veio da efervescência vivida na cidade no tríduo momesco. Não por outro motivo, ele tem o apoio dos blocos Pavão de Krishna, Unidos do Samba Queixinho, Baianas Ozadas e Então Brilha, que cederam o uso do nome para o trabalho beneficente.
Preservação
Em “Coração Sem Fim”, a escritora Larissa Carvalho fala sobre adoção de bichos e dos trabalhos em prol da preservação das tartarugas marinhas ou do processo de extinção de recifes de corais. Esses assuntos, junto a outros (bipolaridade, dislexia e bulimia), foram compilados em 453 páginas e transformados em um romance. “Todos os temas, de alguma forma, são resultado das minhas próprias experiências e da de pessoas próximas”.
Por meio de um triângulo amoroso, formado por amigos inseparáveis (desde a infância), “Coração Sem fim” mostra como viver bem apesar das dificuldades provenientes dessas síndromes.