Fábio Mechetti: orquestra jovem e academia nos planos do maestro

Cinthya Oliveira - Hoje em Dia
Publicado em 07/04/2014 às 07:10.Atualizado em 18/11/2021 às 01:59.
 (André Brant)
(André Brant)
e a difícil rotina de preparação de um regente.

Qual a importância da inauguração da Sala Minas Gerais, na Estação de Cultura Presidente Itamar Franco, para a propagação da música erudita?
A importância maior é a de ter um espaço desenhado acusticamente para uma orquestra sinfônica. Ao trabalhar nesse espaço, poderemos ter uma agenda mais racional, mais intensa, mais ativa, mais diversa. Isso vai ajudar a crescer artisticamente, além de oferecer mais opções ao público. Do ponto de vista da cidade, vai ser um polo que vai irradiar não só os nossos concertos, mas também de orquestras convidadas e outros eventos. Ao mesmo tempo, pretendemos também ter uma Orquestra Jovem e uma Academia para preparar o músico que está quase formado e transformá-lo num músico de orquestra. Porque hoje existe um hiato difícil de preencher no Brasil de gente que se forma em conservatórios e universidades, mas não tem experiência de tocar um repertório dirigido por uma orquestra. Esses músicos são muito prejudicados nas audições. Eles tocam atrás de um biombo. A gente nunca sabe quem está tocando, e a gente percebe bem que o candidato toca muito bem um peça de livre escolha, mas quando tem que tocar trecho de orquestra, não sabe nada. Aí se vê que há pessoas com talento, mas sem vivência.

É assim nos Estados Unidos?
Nos Estados Unidos você tem as escolas que cumprem esse papel. Aqui são raras as universidades que têm orquestra. Temos músicos da Filarmônica que fizeram audições quatro, cinco vezes, antes de entrar. Em cada uma das audições, foi aprendendo, ficando menos nervoso, fez mais aulas, estudou mais. Às vezes, faço audição e não seleciono ninguém, porque não se pode abaixar o nível.

E hoje estrangeiros vêm ao Brasil participar dessas audições?
Sim, eles vêm participar. O número é ainda reduzido do que se vê em situações semelhantes, porque a orquestra é nova ainda. Mas agora começamos a gravar para a Naxos, fizemos turnê internacional, recebemos grandes solistas, o panorama começou a mudar. Na última audição que fizemos em Londres tivemos mais de 40 candidatos de diferentes partes da Europa. Mas eles vêm para cá também. Recentemente, entraram três músicos estrangeiros, um francês, um americano e um colombiano, por meio de audições feitas no Brasil.

Conte-nos sobre o trabalho com a Naxos, a maior gravadora independente de música clássica do mundo.
Já temos um disco produzido por nós, com repertório de (Franz) Schubert, e gravamos três discos para a Naxos, com obras de Villa-Lobos. O primeiro saiu em janeiro (nos Estados Unidos), com “Concerto para Violão”, com um violonista italiano (Andrea Bissoli). O segundo sai em julho, e até dezembro sai o terceiro, com “Choro 6” e “Papagaio do Moleque”.

Há planejamento para a gravação de um DVD?
É difícil fazer DVD porque requer não só qualidade técnica dos que estão fazendo a gravação, mas tem que ser em ambiente fechado (sem plateia). Para nós é muito difícil gravar sem atrapalhar as pessoas que pagaram por aquilo. Na nova sala, o intuito é montá-la com locais para câmera, para fazer esse tipo de gravação. Mas estamos também estudando gente que saiba fazer gravação. A Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp) fez e ganhou prêmios com um engenheiro de som alemão experiente. Para transmissão ao vivo, temos que encontrar uma equipe sólida, que saiba fazer isso. Imagina só o diretor dizer “mostra o oboé” e o câmera não souber o que é oboé.

O público da Filarmônica de Minas Gerais é muito diferente da Orquestra Sinfônica de Jacksonville, que o sr. dirige desde 1999?
O público lá, em geral, é bem mais velho. Primeiro porque os ingressos são muito caros e isso inibe a participação dos jovens, embora haja preço especial em assinaturas para estudantes, que pagam US$ 100 e podem assistir a qualquer concerto. Aqui, o ingresso mais caro custa R$ 70, equivalente a US$ 30. Lá, o ingresso mais barato é US$ 30. Ao mesmo tempo, o que se pode fazer? A orquestra depende do dinheiro do ingresso para sobreviver, não conta com dinheiro do governo. Agora, a minha crítica ao modelo daqui é que a concepção de cultura é muito ampla. Nos Estados Unidos, para você receber contribuição privada tem que ir na Fazenda provar que sua empresa é sem fins lucrativos, com interesse cultural verdadeiro. No Brasil, a coisa é muito ampla. A Lei Rouanet é aberta a qualquer manifestação cultural, desde óperas até Cirque du Soleil e Maria Bethânia. Sem dúvida, sem a Lei Rouanet, não existiria a Osesp e outras orquestras e iniciativas. Mas é uma lei de incentivo à cultura, feita para os que precisavam, que sem o patrocínio não poderiam fazer.

O sr. chegou a estudar a lei que vai alterar a Rouanet, o Procultura?
Não estudei porque essa lei não foi votada. Conheço o que está na internet, mas não sei se é a versão final. Mas o que deveria mudar na lei não muda. Precisamos de uma definição do que é cultura. Eles podem mudar os mecanismos, mas a lei não reflete o verdadeiro problema, sobre o que é cultura.
 
Qual é o orçamento da orquestra?
Cerca de R$ 22 milhões por ano, sendo que cerca de R$ 19 milhões tem como fonte recursos públicos.

Ano passado, a Filarmônica planejou uma turnê internacional, que não aconteceu por falta de patrocínio para as viagens...
Faltou patrocínio. Todo dinheiro de turnê tem que ser realizado com dinheiro fora do termo de parceria com o governo. Quando a gente fez turnê para Argentina e Uruguai, as entidades de lá ajudaram bastante, pagando hotel e transporte. Já para Peru e Colômbia, onde queríamos ir (ano passado), não houve tanta contrapartida. E viajar pelos Andes é muito mais caro. Então o custo seria maior e a contribuição deles foi muito menor, o que inviabilizou o projeto. Acho que é importante viajar para fora, mas não é essencial.

O foco é Minas Gerais?
Acho muito importante viajar pelo interior, porque essa orquestra é financiada pelo contribuinte de Minas Gerais. E a gente leva orquestra mesmo, com repertório de orquestra, legítimo. Uma vez viajamos para Tupaciguara, e fizemos apresentação para 3 mil pessoas. Fizemos concerto, ouvimos muitos aplausos e, quando saímos, vimos uma fila enorme de pessoas que queriam nos cumprimentar. E cada músico que descia do palco recebia os cumprimentos. Você pegava nas mãos das pessoas e via que eram mãos calejadas. Pessoas chorando, dizendo que foi Deus quem mandou. E tocamos um repertório legítimo.

Quando a Filarmônica nasceu, quais eram as expectativas do sr. e do governo?
As mesmas: montar uma orquestra de alta qualidade. Não valia a pena financiar uma orquestra só para ter mais uma. Tive que aprender muito. No início, tinha que mexer em planilha do Excel sobre o orçamento e era algo que eu nunca tinha feito na vida e vim aprender aqui, com a Filarmônica. Todo o staff de 35 funcionários aprendeu, porque não há no Brasil um curso para ser gestor de orquestra. Mas antes do prazo, até eu fiquei surpreso com o resultado que a orquestra teve. No terceiro ano da orquestra, eu e muitos já considerávamos a Filarmônica a segunda melhor orquestra do Brasil, atrás da Osesp. Tem gente que diz que, dependendo do concerto, já somos a primeira.

Como a Filarmônica conseguiu esse nível de excelência em tão pouco tempo?
Primeiro foi criar uma linha artística, mostrando: é assim que vamos fazer, é assim que vamos caminhar, sem olhar muito para o lado. Fico irritado quando dizem que tenho que me adaptar à realidade brasileira. Na verdade, é o Brasil que precisa mudar. O nosso trabalho tem consistência. Os músicos sabem que passam por uma avaliação de desempenho constante. Quanto mais a orquestra ocupa o imaginário nacional, mais exigente temos que ser com nossa qualidade.

Antes da criação da Filarmônica, Minas já tinha a Orquestra Sinfônica de Minas Gerais. As duas trabalham de forma complementar?
A partir do ano que vem, ficará muito óbvia essa diferença porque vamos ficar com a Sala Minas Gerais e a Sinfônica é da Fundação Clóvis Salgado, trabalha com os projetos da fundação, como ópera, balé e Coral Lírico. A Sala Minas Gerais não vai ter fosso, não pretendemos fazer ópera. Uma vai completar a outra, como acontece em São Paulo, onde há uma municipal e outra estadual.

Como surgiu o seu desejo para se transformar em um maestro?
Eu tive “má influência” da família. Meu avô e meu pai eram maestros. Desde cedo, estive sempre envolvido com música. Tentei até fugir, estudei Jornalismo na ECA, por volta de 1976. Estudei um ano e meio e saí. Acho que não é você quem escolhe a música. É ela quem escolhe você.

Como foi sua preparação para ser maestro e como é a rotina de estudos de um regente?
Fiz uma preparação tradicional, que começa com estudo de um instrumento, o piano, no meu caso. Depois é importante se enfronhar no mundo das orquestras, na prática. A técnica é simples, mas o que distingue o profissional é o preparo extramusical. Não leio apenas uma peça, mas quero saber em que contexto aquilo foi escrito. Por isso, vou estudar História, Filosofia, Estética. A preparação de um regente nunca termina. Em 2015, por exemplo, vou encomendar várias obras para a inauguração da Sala Minas Gerais. Tenho que saber quais são os compositores que vamos convidar. 
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