
Os trabalhos manuais e o simples ato de tocar o outro são essenciais à trama de “Mulher do Pai”, filme brasileiro que estreia nesta quinta-feira (22) no Cine Belas Artes. Eles estão presentes, por exemplo, na forma de sustento de uma família gaúcha, que vive na fronteira com o Uruguai.
Formada por uma avó, um pai cego e uma adolescente que perdeu precocemente a mãe, a família trabalha com tecelagem. A contradição é que, apesar dos problemas visuais, o pai vivido por Marat Descartes não exibe qualquer vínculo com a filha (Maria Galant).
É sobre essa intimidade (ou falta de) que o filme está baseado. “O toque é um sentido especial na criação de intimidade entre pessoas. Vamos descobrir que o pai não queria ter a menina, que não recebe qualquer afeto por parte dele”, registra a diretora Cristiane Oliveira.
Exibido no Festival de Berlim e ganhador dos prêmio de melhor direção e fotografia do Festival do Rio, no ano passado, “Mulher do Pai” acompanha Nalu no momento de descobertas da adolescência, mas a falta de uma referencial masculino, na figura do pai, acaba afetando o desenvolvimento dela.
“A avó a cria como uma irmã do pai, estabelecendo uma confusão de papéis. O erotismo é natural entre pai e filha, aceito e analisado pela literatura na primeira infância, com o pai sendo o primeiro namorado. Com Nalu, isso fica guardado em algum lugar”, destaca Cristiane.
De acordo com a cineasta gaúcha, a confusão da protagonista é saber quais sentimentos deverão ser canalizados para o namorado uruguaio e para o pai, com quem mais tarde passa a ter uma relação mais próxima. “Ela também vira quase uma mãe dele, aumentando a confusão”.
Papel da mulher
A fronteira entre Brasil e Uruguai não surge apenas como um espaço geográfico. “Essa região foi escolhida por ser muito aberta, com trocas muito fluidas, além de ser marcante a cultura da pecuária, em que o homem tem papel central”, salienta.
É a maneira como o filme trata de outro tema importante na história de Nalu: o espaço da mulher. “Dentro daquela cultura estagnada, há uma transformação a partir das novas gerações e da chegada da tecnologia”, afirma Cristiane, citando a presença do funk entre os jovens.
Por ser a protagonista, Maria Galant foi o primeiro nome do elenco a ser escolhido. Para o papel do pai, a produção fez uma pesquisa em todo o Brasil, levando em conta principalmente a semelhança física com Maria. Cinco nomes ficaram para a etapa final, com testes de vídeo.
“Já tinha trabalhado com o Marat, mas precisava saber se haveria química com ela. Foi muito emocionante a cena que fizeram, do momento em que o pai toca a filha, a pedido da professora de cerâmica. Eles não se conheciam e Maria ficou com os olhos cheios d’água”, lembra.