Os personagens do filme "A Visitante Francesa" – a melhor estreia desta sexta-feira (19) – fazem um alerta constante sobre o "perigo" dos homens sul-coreanos, que gostam de abordar mulheres estrangeiras. Verdadeiro ou não, o fato é que a narrativa leve adotada pelo diretor Hong Sang-Soo nos faz pensar que sim, com casais se formando a partir desse cruzamento de nacionalidades.
As brincadeiras com os idiomas são lúdicas e um motor cômico importante na construção da história, dividida em três episódios cujo leitmotiv está na operação de pequenas alterações (ou alternativas) na estrutura central. Como atores (entre eles a francesa Isabelle Huppert), situações e cenários se repetem, a graça surge nas possibilidades diferentes de resolução para os encontros multiétnico.
Sua concepção nos remete ao díptico "Smoking" e "No Smoking" (1993), de Alain Resnais, em que um simples acender de cigarro imprime caminhos variados ao casal central. Mas talvez seria mais preciso lembrarmos de outra produção do cineasta francês, "Hiroshima, Mon Amour" (1959), em que uma atriz francesa (Emmanuelle Riva) tem um breve affair com um arquiteto japonês (Eiji Okada), em Hiroshima.
Ambos são casados, situação que, nas três histórias de "A Visitante Francesa", também está presente, ora apenas com a personagem de Isabelle, ora somente com seu par coreano. Ou mesmo com os dois. Num patamar um pouco abaixo de Resnais, Sang-Soo também está mais interessado em analisar o comportamento dos seus protagonistas. Evita, porém, adentrar-se no universo da memória, embora ela surja de certa maneira.
O homem, a princípio, assume essa postura mais "atirada", por assim dizer, encantando-se com a bela estampa da visitante francesa, chamada Anne. Forma-se, na verdade, uma espécie de triângulo, em que a mulher fica entre dois pretendentes. O primeiro é o ponto de partida, o provocador de uma reação em Anne (que carrega um nome semelhante a Elle de "Hiroshima, Mon Amour").
Clichês
O outro é o elemento mais estanque. Em todos os episódios, ele é o salva-vidas que sai do mar com frio e se apresenta a Anne de forma muito empática. Chega a oferecer a sua barraca, após ela considerá-la bonita. Talvez seja essa atitude despojada o que importa. Um gesto simples que, ao longo da narrativa, Sang-Soo ampliará seu valor, com a repetição estabelecendo um peso ainda maior.
Os dois, no entanto, são apenas estereótipos, clichês de antagonismo saído das comédias românticas. A partir dessa comparação, o papel feminino se sobrepõe, com nuances que só uma atriz do porte de Isabelle sabe ofertar, em que é possível perceber em seu rosto um pensamento que diz muito do que ocorre à sua volta e sobre a problemática da mulher. Esse é o tema que emerge com força ao fim dos três capítulos.
Se nos concentrarmos apenas nas reações de Anne, encontraremos uma evolução interessante que vai do receio (da máscara social), passando pela submissão e carência afetiva, até chegar a um ato de afirmação, pequeno e divertido, mas fundamental para compreender o jogo entre sexos – maior que a sugerida questão étnica. Travessia que o diretor sul-coreano realiza com sutileza e graciosidade.