Filme "Além das Montanhas" reflete vazio pós-comunismo

Paulo Henrique Silva - Hoje em Dia
Publicado em 12/04/2013 às 14:14.Atualizado em 21/11/2021 às 02:46.

A duração de “Além das Montanhas”, próximo dos 150 minutos, poderia facilmente ser maior, sem perder seu caráter intrigante, tal é a quantidade de fios soltos que o diretor romeno Cristian Mungiu deixa em sua narrativa sobre duas amigas de orfanato que se reencontram num monastério isolado.

O plano principal do filme, que estreia nesta sexta-feira (12) no Belas Artes, mostra a relação de dependência que Alina estabelece com Voichita, a ponto de não querer fazer nada na vida que não tenha a participação da amiga. Voichita, porém, está firme em sua fé e na vontade de servir a Igreja Ortodoxa. O conflito envolve a não aceitação dessa perda.

Alina é vista, num primeiro momento, como uma garota mimada e intransigente que não entende a missão vocacional de Voichita. Mas gradualmente Mungiu (de “4 Meses, 3 Semanas, 2 Dias”) acrescenta informações vitais para entender que o raio de ação é mais amplo, muito além de uma manifestação boba de ciúmes.

Até mesmo esse ciúme exagerado pode receber nuanças diferentes, como uma apenas sugerida relação amorosa. No monastério, pede para dormir junto com Voichita, que só aceita desde que ela se comporte. Em outra cena, a visitante indaga se a amiga ainda a ama. Ela responde que sim, mas da mesma forma de antes.

Tragédia

Nada, porém, é entregue de bandeja para o espectador, que precisa ficar atento aos detalhes num filme em que, apesar de muitas vezes parecer andar em círculos, segue uma linha reta e crescente, com cada sequência apresentando um dado desconcertante sobre aquela realidade que se inicia de forma simplória e termina com contornos trágicos.

Talvez o grande ensinamento do filme seja dos enganos provocados para esse desejo de simplificar as coisas, sem tempo para conhecer a fundo tudo que as envolve. Ao deixar vir à tona poucas – porém, fundamentais – informações do passado da dupla, “Além das Montanhas” nos faz dar um passo atrás e abrir nosso campo de visão.

O título é muito claro nesse sentido, ao sugerir que não devemos nos limitar aos acontecimentos do monastério. As complexas ramificações geradas pelas ações de Alina contemplam desde um quadro político específico de uma Romênia pós-débâcle comunista a uma falta de humanismo em escala global, reconhecível em qualquer parte do mundo.

Os rumos que a vida da carente Alina tomará são resultado de um país que mergulhou sua sociedade numa espécie de vazio, com instituições que não cumprem o seu papel, jogando a responsabilidade uns para os outros. Apesar de seu estado preocupante, Alina recebe alta do hospital para que seja cuidada pelo padre.

Após a ausência de vários pais – o biológico, que a entregou ao orfanato; o adotivo, que a maltrata; o representado pelo Estado, que, no orfanato, a abusou sexualmente – o que lhe resta é o pai religioso. Não por acaso, ele é chamado de pai pelas irmãs. Porém, só poderá ajudar de acordo com as suas limitações, agarrando-se à sua doutrina.

Gravidade

Embora consiga manter uma necessária paz no monastério, ele, assim como o espectador, vê um problema menor se transformar numa questão muito mais complexa do que poderia imaginar. Alina é incapaz de se adequar àquele universo porque o alimento espiritual não basta para ela, que revela um quadro clínico grave.

O filme nunca menciona diretamente o que a aflige, mas fica no ar um diagnóstico de esquizofrenia, entendida como uma possessão demoníaca pelo padre.

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