
Se Steven Spielberg caísse duro no chão agora, não faltariam textos dizendo que seu último filme lançado – “Jogador Número 1”, em cartaz nos cinemas – é um testamento do que foi a carreira do cineasta, um mago que soube levar elementos fantásticos para a tela grande, nunca deixando de confiar no ser humano mesmo nas situações mais extremas.
Lido de outra maneira, o longa seria mais uma obra distópica protagonizada por adolescentes, como “Jogos Vorazes”, “Divergente” e “Maze Runner”, em que um jovem do futuro, Wade, vive entre a realidade numa favela formada por algo parecido com containers, um em cima do outro, e a fantasia de um jogo de realidade virtual, em que está em busca do grande prêmio.
Mas os elementos típicos spielberguianos estão presentes em “Jogador Número 1” desde a ideia de deturpação da essência do homem, que precisa ser resgatada, até uma nova configuração familiar levada pelas circunstâncias. Sem falar no próprio uso da tecnologia, que pode ser boa e também má, dependendo de quem a controla.
O próprio jogo reflete a necessidade de imaginação, como uma porta que se abre para o novo, previamente destacada em filmes como “ET, o Extraterrestre”, “Jurassic Park” e tantos outros trabalhos que produziu. Prova disso é o carro que Wade usa no mundo paralelo, o mesmo DeLorean pilotado por Marty McFly em “De Volta para o Futuro”.
Referências
É como se, nesta outra dimensão, Spielberg passasse a limpo – a partir do livro homônimo de Ernest Cline, também roteirista –mais de quatro décadas de carreira, revisitando seus filmes, seus temas e também suas referências, numa divertida brincadeira em que ele se põe como ícone cultural dos anos 8o e 90. Algo que certamente agradará a quem se deter nas muitas citações de época.
Entre as muitas referências do filme estão jogos antigos de Atari e de arcades, mangás, músicas e filmes como “De Volta para o Futuro” e “As Aventuras de Buckaroo Banzai”
A busca pela vitória no jogo, cheio de perigos devido ao interesse de empresários inescrupulosos em manipular a mente das pessoas, significa não apenas o desafio de chegar ao fim, como também uma espécie de reconexão familiar, já que o protagonista perdeu os pais e vive com a tia e o namorado bronco dela.
O criador do jogo está morto, mas continua presente dentro daquele mundo, estabelecendo suas regras. Ele surge como uma espécie de pai substituto para Wade, repassando seus valores advindos dos games – um momento significativo é quando o personagem descobre que o prêmio não está em ser o melhor.
É impossível não fazer um paralelo entre o Criador e Spielberg, na maneira como ambos, dentro de um universo fantasioso, expressou um pouco de si, de seus medos e anseios, e permitiu que a fantasia fosse a chave para a preservação de valores. Uma relação que se torna mais forte quando o mentor se despede ao levar seu “eu” criança embora.
Essa volta ao passado também é marcada pela boa mão na condução das cenas de ação, que ele parecia ter perdido depois de “O Resgate do Soldado Ryan”. Ligadas às referências, aparecem sequências antológicas como a reprodução de passagens de “O Iluminado”, dirigido por Stanely Kubrick– de quem Spielberg herdou o projeto “Inteligência Artificial”.