Filme em pré-estreia conta a história de Mario Moreno, astro mexicano

Paulo Henrique Silva - Hoje em Dia
Publicado em 23/10/2014 às 07:55.Atualizado em 18/11/2021 às 04:43.
 (Paris Filmes)
(Paris Filmes)

Um dos maiores comediantes da telona recebeu uma cinebiografia, se assim podemos dizer, “mexicana” demais. A afirmação pode parecer paradoxal, já que Cantinflas (nomes artístico de Mario Moreno) nasceu naquele país, colhendo muito sucesso nas décadas de 40 e 50 com um tipo que falava demais, de forma atabalhoada, sem ninguém entender nada.

O equívoco do filme de Sebastian del’Amo é transformar essa trajetória num melodrama pouco inspirado, que acentua os problemas conjugais do astro, atrelando-os a uma mensagem simplista muito comum em telenovelas mexicanas: o preço da fama, que levou Moreno a virar as costas para o seu passado pobre e abandonar amigos e esposa.

Dentro dessa ótica, os problemas que surgem na vida do comediante têm sempre uma solução à vista, enfraquecendo os conflitos, como se os próprios realizadores não acreditassem muito em sua história, debochando dela como se Moreno fosse um falastrão sem conteúdo como seu personagem, diminuindo até mesmo o seu trabalho sob os holofotes.

A caricatura dá o tom nas duas linhas narrativas do filme. A primeira acontece no “presente” (1955), quando o excêntrico produtor Michael Todd tenta convencer o mexicano a participar do ambicioso projeto de “A Volta ao Mundo em 80 Dias”. A outra linha acompanha os principais momentos da carreira do ator até alcançar o convite que abrirá as portas de Hollywood.

A Hollywood de “Cantinflas” se permite a heróis românticos como Todd e a detratores estereotipados como um executivo afetado que faz de tudo para a United Artists não apoiar o projeto. Da mesma maneira, no passado de Moreno, há um dirigente do cinema mexicano que age como um canastrão mafioso. Enfim, nada que nos leve além de alguns acidentes de percurso.

Não é o caso de querer encontrar no biografado as sombras e feridas de um Jake La Motta, o boxeador protagonista de “Touro Indomável” (1981) que fez de si o seu grande adversário. Mas são esses filmes, transformadores dos instantes mais insignificantes em poderosas frestas para o lado complexo da vida, que conseguem fugir do que está na bula do remédio.

A receita de “Cantinflas” é criar a intersecção entre o pobre terceiro-mundista que pode dizer “não” e o rico americano que aguarda um “sim” de todos. O primeiro quer mudar o modelo de produção, estabelecendo um marco na indústria mexicana. Esse aspecto coletivo contrasta com o sonho egocêntrico de Todd de fazer o melhor filme de todos os tempos.

O roteiro formulaico, porém, não realiza com êxito esse espelhamento, sem nos envolver, principalmente, na audácia desses personagens em afrontar o establishment. No lugar de visionários e loucos, eles surgem até comportados, como se uma série de coincidências e encontros tivessem facilitado o caminho dos dois no cinema.

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