
Para o diretor João Borges, a rua Guaicurus, no centro de Belo Horizonte, é uma zona moral. "Ela existe desde os anos de 1950 e ninguém diz que vai lá. É condenada pelo julgamento alheio. No entanto, atravessa os tempos", observa o realizador, que assina um documentário, já em cartaz, sobre a rua considerada o maior ponto de meretrício de Minas Gerais.
"O conjunto de prédios antigos do Baixo Centro, em estilo art déco, é um verdadeiro patrimônio da cidade e se mantém de pé graças à atividade sexual intensa da região. Os restaurantes, os bares, as farmácias, as ONG’s, as igrejas, o Cine Caribe, tudo gira em torno da economia local, com mais de três mil trabalhadoras do sexo atuando cotidianamente", registra Borges.
"No início, achei que seria impossível ter personagens reais, já as mulheres e os clientes não davam abertura nem para conversar. Então comecei a passar horas andando pelos corredores dos hotéis, almoçando no restaurante da Dona Nice, que funciona no último andar do Hotel Stylus, e tomando cerveja no Zero Hora, bar badalado da região", explica.
Borges também pagava por programas sexuais que duravam de 15 a 20 minutos. "Eu aproveitava para entrevistar as garotas, aproximar-me e conquistar a confiança delas. Com o tempo, já estávamos conversando sobre roteiro e ensaiando cenas dentro dos quartos. Foi assim que conheci A Beth e a Shirley (personagens centrais do documentário)", detalha.
O resultado é um documentário híbrido, que mistura personagens reais e atores com o objetivo de superar obstáculos estéticos e orçamentários. "Isso me ajudou a ter maior controle sobre o plano de filmagens. Fizemos com um orçamento baixo e tivemos que ser objetivos para conseguir fazer tudo em 12 dias, durante o ano de 2017", explica Borges.
Os atores interpretam seus personagens inspirados em histórias que foram contadas durante o processo de pesquisa. "Acho que essa relação contribuiu para a dramatização do filme: o ator profissional trazia segurança ao não-profissional, desenvolvendo os temas por meio do diálogo proposto no roteiro", observa o diretor de "Rua Guaicurus".
O que não quer dizer que essa combinação foi completamente bem-sucedida. Causa incômodo a cena em que um ator profissional de filmes adultos começa a masturbar Beth e acaba machucando-a. "É uma das mais drásticas do filme. Ela se inicia com ar meio cômico, trazendo certo alívio, mas vai ficando cada vez mais constrangedora, mexendo com várias emoções".
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