SÃO JOSÉ DO RIO PRETO (SP) – Dentre os grandes festivais de artes cênicas do país, o Festival Internacional de Londrina (Filo) deteve durante décadas o lugar isolado de escalar as propostas artísticas mais radicais em sua programação. Este lugar mudou de dono: hoje é o FIT daqui o que mais se permite propor novidades, linguagens ainda não consolidadas. Algumas até aparentemente fadadas a não vingar, a não despertar maiores interesses. Assim tem acontecido com esta edição, a 13ª depois de mais de 40 anos de renome como um festival apenas amador, mas rigoroso.
O diretor teatral e coordenador-geral do FIT/BH, Gustavo Bones, é um dos cinco curadores desta edição iniciada dia 4, que chega ao fim no próximo sábado. Outra vez, uma edição marcada por propostas atrevidas, surpreendentes, principalmente entre o que vem de fora – ainda que a escalação mais citada de todas seja “A Dama do Mar”, uma adaptação de um texto de Susan Sontag, em que Bob Wilson dirige atores brasileiros. Bob Wilson deixou de ser vanguarda, sentenciam os críticos
Vanguarda
Vanguarda ou algo assemelhado é o selo atribuído hoje ao coletivo Fanny & Alexander, da Itália, que trouxe “Him” ao FIT local. O grupo não é inédito no Brasil: exibiu uma trilogia em São Paulo, em 2012. “Him” (Ele) é um das dez propostas de múltiplas linguagens criadas sob um tema único, o Mágico de Oz. Solo e de joelhos sobre uma almofada, durante 1h40, o ator Marco Cavalcoli dubla todas as falas do clássico do cinema mundial com sincronia e maleabilidade vocal espantosas. E ostenta um bigodinho à maneira de Hitler, mas o nexo entre o autoritarismo do ditador e dos textos do filme não parece claro a quem vê. Só a quem leu uma bula explicativa antes da sessão começar.
Escola argentina
Numa outra vertente, embora menos bem contemplada pela programação deste ano, “Emília” causa forte impressão. Vindo de Buenos Aires e produzido pelo mesmo núcleo de produção de Tecer Cuerpo (o Timbre 4, escalado pelo FIT/BH de 2011), coloca cinco atores em cena para contar uma história bastante reconhecível. A de um lar disfuncional que recebe a visita de uma mulher fundamental na educação amorosa de um dos seus membros.
Aparentemente feliz, alvissareiro, esse encontro imprevisto vem eclodir emoções submersas no lar do presente e conflitos mantidos nebulosos no lar do passado. Além de atores notáveis (virtude da escola de interpretação argentina), do cenário sugestivo, o texto e a direção de Claudio Tolcachir alcançam notas bastante profundas na sensibilidade da plateia, faz com que ela não se permita relacionar a distância com a história que vem contar. No mínimo, o enredo fala de quem elimina a pessoa que afirma amar.
Embora não almeje a vanguarda, alguém, convenhamos, precisava abordar no teatro este tema tão frequente na vida cotidiana.
* Viajou a convite da produção do festival