
Estabelecer diálogos. Esta é uma das tônicas do 1º Festival Literário Internacional de Belo Horizonte (FLI-BH). O evento – que se inicia nesta quinta-feira (25), seguindo até domingo (28), com entrada gratuita – é um convite à interação, tanto no que diz respeito à aproximação entre escritores e leitores (leia mais na página 28) quanto à comunhão com outras formas de arte. Isso porque, além de chegar em sua forma mais legítima, por meio dos livros, o festival coloca a literatura em cena por meio de outras linguagens, como a fotografia (exposição “Cidades Escritas”, de Daniel Mordzinski, no Parque Municipal), música (show de Ná Ozzetti e José Miguel Wisnik, domingo, às 20h, no Teatro Francisco Nunes), ópera (“Carmen”, no Palácio das Artes) e intervenções urbanas, entre outras.
Na sétima arte, a mostra “Interseções”, no Cine Humberto Mauro, reúne oito filmes baseados em obras de autores consagrados do século 20. Entre os destaques, o curador Bruno Hilário cita as adaptações dos livros de Ernest Hemingway, como “Por Quem os Sinos Dobram” (1943), “Uma Aventura na Martinica” (1944) e “O Velho e o Mar” (1958). “Hemingway teve uma relação estreita com o cinema. Isso porque o estilo e as temáticas escolhidas parecem já ter sido feitas para virar filmes”, afirma.
O longa “Oliver!” (1968), de Carol Reed, é outro chamariz. “Reed transportou a obra de Charles Dickens com genialidade, conseguiu transformar um forte conteúdo político, ao expor as mazelas da sociedade, em um musical”, frisa.
“O cinema busca um parentesco imediato na literatura, não só como tema e história, mas também na própria linguagem”, ressalta Hilário.
Nos palcos
Logo nesta primeira tarde, o público já poderá conferir, às 15h, no Teatro Francisco Nunes, a peça “Uma Professora Muito Maluquinha”. Encenada pelo grupo Real Fantasia, a partir da obra de Ziraldo, a trama flagra Catarina e seu jeito “muito especial” de ensinar. “Apesar de a linguagem literária ser distinta da teatral, tentei ser o mais fiel possível à obra de Ziraldo. Inclusive, reproduzi diálogos inteiros do original”, afirma o diretor Sergio Abritta.
Para ele, traduzir o clássico para os palcos foi desafiador, justamente por se tratar de artes distintas. “O texto foi entregue aos poucos para o Kalluh (Araújo, dramaturgo). Na medida em que o grupo ia ensaiando, íamos conversando e modificando aquilo que havia ficado ‘literário demais’. O espetáculo foi produzido como novela, em capítulos – o que acabou sendo um dos motivos para ter dado tão certo”, diz.
Contribuição mútua
Segundo Abritta, literatura e teatro são artes irmãs, se complementam. “Acredito que o livro pode estimular a pessoa a assistir à peça. Da mesma forma, ao ver o espetáculo, ela pode querer travar contato com a obra original. E, nestas buscas, certamente o leitor vai descobrir algo que a peça não tratou, e vice-versa”, enfatiza.
Espaço para o diálogo entre leitores e autores
Um dos diferenciais do FLI-BH é a oportunidade que o público tem de conversar diretamente com escritores, por meio de mesas de debates e conferências. Ao todo, mais de 100 personalidades ligadas à literatura compõem a grade da primeira edição do evento.
Entre os convidados, está Milton Hatoum, autor de obras como “Relato de Um Certo Oriente”, “Dois Irmãos”, “Cinzas do Norte”, “Órfãos do Eldorado” e “Um Solitário à Espreita” – todas chanceladas pela Companhia das Letras. Autor premiado, Hatoum vai participar da conferência “Imagina o Mundo, Imagina a Cidade” – tema do evento –, no Teatro Francisco Nunes, nesta quinta-feira (25), às 19h30.
“Na conferência, vou falar sobre três romances – ‘Grande Sertão: Veredas’, de Guimarães Rosa; ‘Pedro Páramo’, de Juan Rulfo; e ‘Absalão, Absalão!’, de William Faulkner. São três autores importantíssimos, que quem gosta de literatura, certamente, conhece. E que permitem isso: imaginar o mundo, imaginar uma história, cada um com a sua própria linguagem”, destaca.
Debate com o leitor
O mineiro Carlos de Brito e Mello também estará presente no FLI-BH. Ele é autor dos livros “O Cadáver Ri dos seus Despojos” (Editora Scriptum) e “A Passagem Tensa dos Corpos” (Companhia das Letras).
Participante do debate “Eu Ruído”, neste sábado (27), às 14h, no Espaço Ribalta, no Parque Municipal, Mello ressalta a questão do contato com os leitores. “Falar sobre texto é uma chance que nunca pode ser desperdiçada, sobretudo quando se pode trazer, para a cidade, autores de grande relevância para produzir diálogos com a população”, afirma.
Literatura em toda parte
Luiz Ruffato, mineiro de Cataguases radicado na capital paulista, é outro convidado do evento. Doutor em Teoria da Literatura e Literatura Comparada, ele é autor, dentre outros, de “Eles Eram Muitos Cavalos”, “Flores Artificiais” e “Estive em Lisboa e Lembrei de Você”, todos lançados pela Companhia das Letras, além de “Minha Primeira Vez”, da Editora Arquipélago.
“O meu sonho é que o Brasil inteiro tenha festivais literários, pois assim, talvez, seja possível melhorar um pouco o nível de leitura no país”, afirma.
Juntamente com o escritor mexicano Juan Pablo Villalobos, Ruffato compõe a mesa de debate “A Literatura e a Cidade”, previsto para o domingo (28), às 15h30, no Teatro Francisco Nunes (Parque Municipal).
Confira alguns destaques da programação do FLI-BH:
Filme "Vindas da Ira", de direção de John Steinbeck, que está na mostra "Interseções"
Peça "Uma Professora muito Maluquinha", encenada pelo grupo Real Fantasia
Música “A olho nus”, de Ná Ozzetti e José Miguel Wisnik