DE PARTIDA

'Fortaleza hotel' trata da falência dos desejos

Paulo Henrique Silva
phenrique@hojeemdia.com.br
Publicado em 07/02/2022 às 09:07.Atualizado em 07/02/2022 às 09:12.
AMIZADE – Na expectativa de se mudar para Dublin, na Europa, camareira de hotel vivida por Clebia Sousa conhece uma sul-coreana que chega ao Brasil para buscar o corpo do marido que cometeu suicídio
AMIZADE – Na expectativa de se mudar para Dublin, na Europa, camareira de hotel vivida por Clebia Sousa conhece uma sul-coreana que chega ao Brasil para buscar o corpo do marido que cometeu suicídio

O universo criado por Armando Praça em “Fortaleza Hotel”, cartaz nos cinemas, é sustentado por um emaranhado de conexões que nos conduzem à mesma ideia-mãe – transitar, a partir de seus múltiplos sentidos e derivados.


Logo nos primeiros minutos vemos o rosto em perfil da atriz Clebia Sousa. Ela está sendo questionada sobre destinos e origens no que parece ser um posto alfandegário, mas logo descobrimos que se trata apenas de um ensaio.


Pilar, uma arrumadeira do hotel título, encontra-se nesse instante de pré-partida, em que começa a se desconectar de sua realidade cotidiana, um estado de transitoriedade que repentinamente é interrompido.


A jornada para o exterior passa a ganhar outro sentido, de fragilidade e precariedade, porque a possibilidade de uma nova vida passa a representar a morte do outro – a filha tragada pela realidade violenta dos traficantes da capital cearense.


Entende-se essa morte do outro também como a eliminação de um papel que apenas nos é esboçado na narrativa: a falência da arrumadeira como mãe, incapaz de tirar a filha da proximidade com a criminalidade.

A morte ronda a trama desde o início, com a chegada de uma mulher sul-coreana à Fortaleza para reconhecer o corpo do marido que acabara de se suicidar. É a mãe cearense que servirá de ponte entre culturas tão diversas.

NÃO-LUGAR
 

A protagonista está entre uma morte consumada e outra que parece se avizinhar, levando a personagem cada vez mais para um não-lugar, com o hotel sendo o maior exemplo dessa falta de identidade.


A não ser por algumas frases prontas, não sabemos as razões de a personagem querer sair do país, embora elas possam ser intuídas por conta da realidade sócio-econômica. Mas nunca temos a idealização desse novo lugar.

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Assim, a transição de Pilar se estabelece mais no campo da mobilidade pura e simples. E menos nas ideias. Apesar de suas reações sempre contidas, como se quisesse o controle das situações, ela, na verdade, empreende uma fuga desesperada.

Em “Fortaleza Hotel”, apenas tentar se desvencilhar de algo que incomoda parece ser um objetivo honesto, mas não o suficiente para nos convencer de que a jornada chegará a um porto seguro, ao encontro daquilo que poderá ser um pilar.


Pilar, a personagem, é fruto de uma contradição: a única estrutura que a sustenta é a da sobrevida – dela e de grande parte dos brasileiros. A aceitação do que é temporário – do jeitinho à gambiarra – é o máximo que se pode vislumbrar.

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