
Hilda Furacão, Bruna Surfistinha e “As Senhoritas de Amsterdã”. As histórias do universo dos meretrícios e suas integrantes sempre atraem críticas, mas também, curiosidades infinitas, mesmo que veladas. O terceiro nome acima, que intitula o livro em lançamento pela L&PM Editores (208 páginas, R$ 39,90) é prova disso.
“...Agradecemos também a todos aqueles que jamais nos julgaram”, dizem as “senhoritas”, as irmãs gêmeas idênticas Martine e Louise Fokkens. Juntas, elas cumularam mais de cem anos de prostituição no Bairro da Luz Vermelha, em Amsterdã, na Holanda.
Hoje, já idosas, Martine e Louise escrevem este livro com passagens de suas vidas vendendo sexo. As gêmeas se tornaram as prostitutas mais conhecidas da cidade holandesa, onde ficavam esperando clientes em vitrines conforme tradição local.
Sem problema
Não espere um livro com lamentos de uma vida jogada ao infortúnio, muito menos, um texto que dê glamour à atividade que exerceram. Em “As Senhoritas de Amsterdã – Confissões das Gêmeas Prostitutas Mais Antigas da Cidade” o texto é comum. Como se fosse um médico escrevendo sobre a sua profissão, ou uma professora, ou qualquer um de nós.
A curiosidade, definitivamente, está nos olhos de quem vê. Porque, para as duas ex-prostitutas, a história é a da vida mais comum. No livro elas contam programas que tiveram com clientes como “Loutje Pequeno Polegar, o Doidinho”, “Teun, o Egomaníaco” e o “Halterofilista”.
Martine diz que há clientes que envelheceram com ela. Louise, por sua vez, vê que os novos tempos, com o aumento da criminalidade e das drogas, a “profissão mais antiga do mundo” tornou-se mais perigosa do que presenciaram no pós-guerra.
Na publicação, há também relatos de ex-clientes das “senhoritas”. Este é o caso de um destes, identificado apenas como “Lex”, que diz: “Todos os clientes das ‘mulheres de vida à toa’ deveriam saber que nenhuma moça de quinze anos realmente imagina para si esse trabalho. Caem nele. Uma aos dezoito anos por razões econômicas, outra após uma relação mal-sucedida ou qualquer outro revés do destino. Quase nunca é por livre e espontânea vontade”.
Para Lex, a exceção está entre algumas mulheres que acham a prostituição “excitante ou que fazem pelo dinheiro fácil”. De uma forma ou de outra este cliente ensina: “Trate-as com respeito e ternura. E não esqueça: se elas gostam, você também gostará”.
Diga-se de passagem, um belo conselho extensivo ao tratamento para com todas as mulheres – sejam aquelas do bairro da Luz Vermelha holandês, da rua Guaicurus ou aquela da casa em que você, senhor leitor, reside.
Sempre com roupas iguais, Martine e Louise Fokkens se prostituíram quando completaram 20 anos. Ambas já eram mães quando foram pressionadas pelos seus maridos a “cair na vida”.
Com o tempo, livraram-se dos companheiros exploradores, mas não da prostituição. Este livro chega em português três anos depois de ter saído na Europa. Na época, as gêmeas, hoje com pouco mais de 70 anos, também foram personagens do documentário “Meet the Fokkens”.
Louise se prostituiu até a década de 1990. Martine, por incrível que pareça, até o ano passado. Hoje, elas trabalham como pintoras e o tema predileto delas para as telas, além de flores e jardins, é o mundo, sem tanta beleza, para o qual foram empurradas, assim como a vida muitas vezes é.