“Goosebumps” e “Ponte dos Espiões” são dois dos destaques nos cinemas de BH

Paulo Henrique Silva - Hoje em Dia
Publicado em 23/10/2015 às 07:57.Atualizado em 17/11/2021 às 02:11.
 (SONY PICTURES/DIVULGAÇÃO)
(SONY PICTURES/DIVULGAÇÃO)

São várias, as estreias nas salas de cinema na cidade neste final de semana. Entre elas, “Goosebumps: Monstros e Arrepios” merece um olhar mais atento. O roteiro parte de um conflito que já rendeu boas histórias: garoto chateado por ter mudado de cidade (Zach) conhece vizinha estranha (Hannah), que só fica dentro de casa, devido ao pai austero (Jack Black).

O filme atrai o espectador mirim por esse sentimento de inadequação, principalmente em relação à família. O interessante é que a jornada, no fundo, aponta para um entendimento entre pais e filhos.

A preocupação pedagógica surpreende, especialmente num gênero em que os efeitos especiais e a maturidade forçada são acentuados. O que leva a outro aspecto interessante do diretor Rob Letterman (“Monstros vs. Alienígenas”): a tecnologia pode estar presente na criação de monstros, mas a trama centra seu foco no prazer da leitura. O pai de Hannah é um escritor famoso, R. L. Stine, inspirado num personagem real.

O Stine de verdade é autor de centenas de séries juvenis de sucesso – “Goosebumps” é o título de uma delas e foi, na década de 90, o que “Harry Potter” representou nos anos seguintes. Para quem conhece o universo do escritor, será um prato cheio, especialmente no que tange aos vilões, que saem dos livros para vingar o tempo de reclusão na estante. Já para quem não conhece, é um convite e tanto.

Há muitas referências à trajetória de Stine, como quando é comparado a Stephen King. E no instante em que é mostrada uma máquina de datilografar, a mesma que ele (o “Stine verdadeiro”) usava, aos nove anos. O próprio autor aparece em cena, numa cena rápida, atravessando o corredor da escola onde acontece o confronto (com os monstros), que, ao final, passa a simbolizar o enfrentamento contra nossos próprios demônios.

Spielberg + Hanks

"Ponte dos Espiões”, de Steven Spielberg, outra estreia da semana, traz um Tom Hanks que aguarda uma troca de espiões numa ponte gélida, na dividida Alemanha dos anos de Guerra Fria. Personagem que se linka ao defendido pelo ator em “O Terminal”, um turista que fica preso num aeroporto em Nova York, porque o seu país de origem sofreu um golpe: ambos estampam a luta contra a estupidez de algumas regras.

Como em quase todos os trabalhos de Spielberg, as tramas envolvem a persistência do indivíduo sobre um coletivo desumanizado. Essa visão está sintetizada na frase “homem persistente”, cunhada por um espião russo que o advogado Donovan (Hanks) é levado a defender, para mostrar que a América é justa com todos, e que, contraditoriamente, deveria jogá-lo na cadeia, não se esforçando para livrá-lo da condição de culpado. Questionado até pela família, ele não abre mão de tratá-lo como um cliente comum, com os direitos de qualquer outro.

Mas não é só isso que “Ponte dos Espiões” quer enfatizar, condenando o patriotismo exacerbado que, muitas vezes, implica em fechar de olhos a ações condenáveis – como, por exemplo, o ataque ao Iraque. Spielberg põe no mesmo patamar o espião e o advogado, tirando de cena o aspecto político.

Sem se aprofundar nas ações de espionagem de Rudolf Abel (numa bela interpretação de Mark Rylance), gradualmente o filme transforma esse inimigo num homem que estava cumprindo ordens e, até o fim, foi fiel a esse princípio, não traindo seus superiores, o que faz dele um personagem cativante, permitindo assim entender as razões de Donovan lutar contra todos para obter uma causa justa.

É uma história que ressalta o poder da inteligência e da diplomacia, sobre como as paixões nos conduzem a passos errados, bem como o uso da força. Os melhores momentos de "Ponte de Espiões" são quando o advogado usa de toda a sua astúcia em longas negociações com autoridades alemãs, russas e americanas, que só querem tirar proveito em benefício próprio, enquanto Donovan tenta contemplar a todos.

Mas incomoda também, nesse esforço de não julgar ninguém por suas diferenças políticas ou étnicas, raízes de muitas guerras sangrentas, a heroificação dos dois personagens. Se revelasse as ações do espião, não apenas sugerindo as suas imperfeições, Spielberg não seria mais humano e realista? E o que dizer dessa glorificação da simplicidade e do bom-mocismo, com um advogado que não carrega nenhuma mácula?

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