O nome de Gustavo Lopes não estava listado entre as atrações da "8ª CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto", encerrada dia 17. Mas o garoto, de apenas 13 anos, acabou chamando atenção – inclusive do fotógrafo Ricardo Bastos, do Hoje em Dia, que, voluntariamente, resolveu clicá-lo – por um motivo bem particular: a despeito da pouca idade, o estudante é um pesquisador inveterado da música e do cinema dos anos 30/40. Sim, ao invés de hits de Carly Rae Jensen, por exemplo, ele aplica, em seus ouvidos, Aurora Miranda, Francisco Alves ou Almirante. E ao invés de blockbusters, vê filmes das décadas citadas.
Ao responder às perguntas da reportagem, além da simpatia, Gustavo deu provas inequívocas da desenvoltura que certamente encantou a pesquisadora Alice Gonzaga, filha de Adhemar Gonzaga, fundador da Cinédia, e "culpada" por sua ida a Ouro Preto. Mas para contar essa história, é preciso voltar no tempo. Gustavo diz que seu apreço a "antiguidades" vem desde que se entende como gente. "Com a internet, passei a pesquisar a música dos anos 30, e notei que a indústria do rádio e do disco estavam muito atreladas ao cinema. Até a década de 40, e mesmo na de 50, os cantores mais famosos participavam de filmes. Me perguntei: mas onde estão esses filmes? Sabia que a maioria estava perdida, mas fui procurar quem estava cuidando do que restou, pessoas que conhecessem mais essa área". Foi quando resolveu procurar o escritório da Cinédia, ao ler que um evento privado exibiria a cópia restaurada de "Alô Alô Carnaval" (1936, Adhemar Gonzaga).
"Liguei para lá, no dia 16 de outubro, mas o moço que atendeu não sabia detalhes e passou o telefone da própria Dona Alice. Fiquei com receio (de ligar), mas, 20 minutos depois, tomei coragem". Alice foi receptiva, mas foram as filhas dela que ficaram desconfiadas do interesse de um interlocutor tão jovem pelo assunto. "Elas a aconselharam a ter cuidado, pois poderia ser uma pessoa querendo se passar por mais nova, e passando trote", lembra ele. Mesmo assim, Alice e Gustavo começaram a conversar pela web. "Achei ela no Facebook, começamos a conversar por lá e por e-mail".
Ir ao Museu Vicente Celestino é uma meta
As dúvidas das filhas de Dona Alice se dissiparam quando os dois se encontraram no Festival de Cinema de Anápolis, em maio. "Ela me disse que participaria, mas avisou: Não é Brasília, mas é perto. Então, pedi para meu avô e minha mãe para ir. Fiquei num outro hotel, mais barato, mas acabei ficando muito tempo com ela". Daí voltamos a Ouro Preto: graças à intervenção de Alice, Gustavo acabou sendo convidado a participar do "CineOP". E adorou. Sua meta, agora, é ir ao Festival de Conservatória (RJ), onde vibra com a possibilidade de conhecer o espaço dedicado a Vicente Celestino. E ver, por exemplo, o vestido que Gilda de Abreu usou no filme "Bonequinha de Seda" (1936).
Inusitado? Sim, Gustavo Lopes sabe que seus interesses são distintos dos cultivados pelos seus contemporâneos. E nesse caso, há um outro "culpado": o avô materno, que é cantor e, nos anos 80, chegou a gravar discos. Foi através dele que o garoto chegou às músicas de Carmen Miranda, Mario Reis, Emilinha Borba, Marlene, Jorge Goulart...
E, como já foi explicado, daí chegou ao cinema, caminho que pretende seguir trilhando no futuro. "Costumo dizer que tenho dois ou três caminhos, mas que, ao fim, vão convergir. Posso fazer cinema, me tornar um pesquisador, por exemplo, ou um pequeno produtor de documentários. Ou fazer arquivologia, ser um restaurador...", especula. Enquanto isso... "Me considero um bom estudante, mas me penalizo, pois deveria me dedicar mais à escola", diz, todo sério. Bom que a atenção que ele dá já é suficiente para garantir boas notas no boletim.