
A historiadora Mary del Priore assume: gosta de pensar questões ditas “maiores” que, sob seu ponto de vista, atravessam a sociedade brasileira. O livro “Histórias Íntimas”, por exemplo, lhe permitiu lançar um olhar sobre as transformações da sexualidade no Brasil. Já para “Do Outro Lado – A História do Sobrenatural e do Espiritismo” (Editora Planeta, 208 páginas, R$ 34,90), seu mais recente título, ela se perguntou que significação tem o verbo “crer” em nossa cultura.
“Desde sempre, o campo do religioso tem sido uma encruzilhada de várias crenças: podemos ser maçons, positivistas, espíritas e frequentar terreiros de tradição africana, tudo ao mesmo tempo. No passado, também, as pessoas iam da igreja dos Capuchinhos ao terreiro do Pai Gambá. Tudo indica que crenças são capazes de exprimir a humanidade na sua mais profunda e intensa medida”, pondera.
Passados séculos, muitos desses objetos de fé e convicção estão aí, “jovens, oxigenados, vivos”. “O que se convencionou chamar de sobrenatural, maravilhoso ou fantástico resulta, na realidade, de um ato de fé. Ninguém procura explicá-los”, diz ela, que chega a Belo Horizonte nesta quarta-feira (8), para o lançamento da obra, a partir das 20h, na Livraria Leitura do BH Shopping.
Tais manifestações, prossegue a historiadora, são recebidas como uma “mensagem” na qual se lê toda a onipotência e as marcas da intervenção de Deus – ou de deuses – no mundo. “No plano de sua função no interior de uma sociedade, as crenças são insubstituíveis. Servem para compensar as vicissitudes da vida cotidiana, acolhendo favoravelmente os desejos mais secretos dos homens, fazendo justiça entre bons e maus e passando avisos e mensagens”.
Fenômenos populares
Essa razão, mais a riqueza dos documentos que encontrou pelo caminho, acabaram incentivando ainda mais Mary. “Do Outro Lado” foca sobretudo no desenvolvimento do espiritismo, além de abordar fenômenos que foram (ou ainda são) bastante populares – como o magnetismo, o sonambulismo, as “mesas volantes” e outras formas de entrar em contato com o mundo sobrenatural e com aqueles que já partiram.
Em sua jornada, achados a mancheias. “Foi interessante, por exemplo, encontrar, nos jornais do século 19, temas que até hoje invadem o imaginário: vampiros, exorcistas, rituais de despossessão, o diabo de cartola e capa, muito parecido com Mandrake, ou fradinhos da mão furada, diabretes capazes de atender os pedidos mais bizarros... Enfim, a lista é longa e demonstra que, no campo do imaginário religioso, pouca coisa mudou”, diz, referindo-se ao fato de, ainda hoje, esses personagens habitarem as telas de cinema e TV, ou as HQs.
A diferença é que, no passado, muitos se constituíam em “verdades” sobretudo quando amparados por “técnicas modernas” como a eletricidade, os raios e a fotografia. Mas a crença não era restrita aos, digamos assim, menos eruditos. A historiadora lembra que médicos famosos, como Lombroso e Charcot, além de prêmios Nobel de física e química, acreditavam em forças estranhas e na presença do Outro Mundo entre nós.
Anúncios e artigos
Em sua cruzada para narrar com fidedignidade tais fenômenos, Mary Del Priore teve o apoio de dois grandes fundos documentais: os jornais de época (“que, para nossa alegria, estão digitalizados pela Biblioteca Nacional”) e a literatura do século 19. “Machado de Assis escreveu a respeito e Coelho Neto era espírita”. Quanto aos periódicos, ela ressalta o fato de a imprensa publicar desde anúncios de videntes e cartomantes até longos artigos sobre casas mal assombradas.
Nas colunas dos leitores, acrescenta, não era difícil detectar o grande embate que houve em torno do espiritismo. “Fraude ou verdade incontestável – essa era a discussão. Percebe-se, porém, que havia um respeito enorme pelo que se considerava uma mistura de ciência e religião, capaz de tornar o país melhor, mais solidário, menos corrompido”, atesta.
Matérias jornalísticas sobre conhecidos pais de santos de terreiros de candomblé, como Juca Rosa, dão, igualmente, o retrato da sociedade oitocentista e branca, “frequentadora das então chamadas ‘casas de pretos’, onde a equação de poder ficava de cabeça para baixo: lá, quem mandava era o escravo, e o senhor ou a iaiá, obedeciam”.
Ao final do livro, os leitores encontrarão a lista dos jornais que traziam informações sobre questões do além e do sobrenatural no Brasil imperial.