Homenagem ao cineasta Eduardo Coutinho

Paulo Henrique Silva - Hoje em Dia
Publicado em 21/04/2014 às 12:15.Atualizado em 18/11/2021 às 02:14.
 (IMS)
(IMS)
Três dias antes de ser assassinado pelo filho com dificuldades mentais (no último dia 2 de janeiro), o cineasta Eduardo Coutinho gravou a faixa comentada para o DVD de seu filme mais celebrado, o documentário “Cabra Marcado para Morrer”.
 
Era para ser um trabalho comemorativo, em torno dos 30 anos do lançamento nos cinemas, mas agora a edição especial confeccionada pelo Instituto Moreira Salles ganha um tom solene de despedida ao maior documentarista do país. 
 
Os extras que acompanham o filme reforçam esse caráter ao reunir os médias-metragens “A Família de Elizabeth Teixeira” e “Sobreviventes de Galileia”, ambos produzidos no ano passado, sob a batuta de Coutinho, e intimamente ligados a “Cabra”.
 
Mortes contínuas
 
Eles marcam o retorno do realizador às cidades de Sapé (Paraíba) e Galileia (Pernambuco), que estão na origem da atribulada realização do documentário, iniciado em 1964 e, devido à censura promovida pela ditadura militar, só concluído 20 anos depois.
 
Não deixa de ser curioso que o filme tenha passado por contínuas “mortes” e “ressurreições” em cinco décadas. A própria razão de ser está numa morte, a do líder camponês João Pedro Teixeira, assassinado em 1962 sob encomenda de latifundiários.
 
Era para ser um filme de ficção, com a encenação da história de Teixeira pelos próprios camponeses. Mas quando o projeto foi retomado, Coutinho partiu para um documentário sobre o projeto inacabado e os caminhos trilhados pela viúva Elizabeth e seus 11 filhos.
 
Fantasma
 
Enquanto Elizabeth fugiu para o Rio Grande do Norte, os filhos se espalharam por outros estados, entregues a familiares e amigos. “Cabra” registra esse distanciamento, mas imbuído de um caráter político e pessimista, sobre as consequências do golpe militar.
 
Agora, ao repetir esse encontro, dividido em dois filmes, percebemos uma separação ainda maior, lançando outros matizes sobre a relação entre mãe e filhos e entre irmãos. O pai deles surge muitas vezes como um fantasma que, no lugar de uni-los, ajuda a afastá-los.
 
Por mais que Coutinho se mostre um interlocutor ativo e carinhoso, como se fosse um parente distante, os depoimentos são carregados de certa melancolia, até mesmo Elizabeth, distante daquela figura que tomou o lugar do marido como voz dos camponeses.
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