

Chão de Feira
1) A paixão pelo gênero policial é antiga? Quem são os autores do gênero que viraram referência para você?
Sempre gostei de policiais, na verdade, gosto de tudo que é relacionado ao tema, não só romances. Mas, dentro dos romances, a primeira autora que me chamou a atenção foi a Patrícia Melo, daí fui conhecendo outros, Rubem Fonseca, Mário Prata... E os mais contemporâneos, como Marçal Aquino, que nem sei se chegaria a ser classificado como um autor de policiais, mas trabalha com essa linha, que envolve suspense, essa abordagem mais instigante, com adrenalina. Já os autores internacionais, confesso, acompanho menos.
2) Como foi o processo de concepção da obra?
Comecei a escrever essa novela como novela mesmo, um capítulo por dia, ou um por semana, mas as coisas ganharam uma proporção que não achei que fossem tomar. Os leitores começaram a me cobrar, e era difícil, pois o policial requer acuidade. É preciso que o autor crie laços, vínculos, personalidades... e amarrar tudo isso. Como autor, eu sempre me perguntava: isso poderia ter sido descoberto de outro jeito? Mais para o final, senti uma certa dificuldade em concluir a história, com receio de que não ficasse vaga, não resolvida. Demorei bastante tempo. Com a participação do público, resolvi ir publicando numa plataforma à parte, e me surpreendi, pois, sem comprar views, sem manipular, chegamos a 300 mil leitores. Daí coloquei o desenlace para downloada, para aferir quem tinha lido até final, foram mais de dez mil. Fiquei muito satisfeito, mas não consegui apoio de editoras (para migrar a história para o livro impresso). Ficou no blog. Procurei grandes editoras, nenhuma se interessou, talvez porque minha história estivesse fora dos padrões que estavam acostumados a publicar. Daí convenci a minha editora, que não publica romances, esse tipo de literatura, a lançar. O mais surpreendente foi que encontrei autores de romances policiais, como o Rafael Monte, que é apontado como um jovem talento, e o próprio Mário Prata, em Ouro Preto, e deixei exemplares com eles. Para minha surpresa, Mário me retornou, elogiando. Tanto que a segunda edição já vem com esses elogios, então, posso dizer que foi uma estreia interessante.
3) Há uma frase, creditada a você, e referente ao seu livro, que diz que sua saga pode ser classificada como "policial, psicótica, suja, politicamente incorreta e sem compromisso algum com qualquer tipo de estética literária". O politicamente correto te incomoda? Como esse politicamente incorreto pode ser aplicado à obra?
Quando falo de politicamente incorreto, é preciso frisar que tudo depende da abordagem, pois o conceito é relativo. Quando usado para incentivar - ou mesmo chancelar - discursos de ódio, eu prefiro nem usar a expressão "politicamente incorreto", e sim, a "politicamente imbecil". Atualmente, existe uma diferença significativa na forma como as coisas são passadas. Antes, era comum ver uma pessoa contar num bar, numa roda de amigos, uma piada de teor racista ou sexista, por exemplo. Hoje, se você coloca essa mesma piada na internet, ela é replicada a milhares de pessoas. Esse tipo de abordagem preconceituosa, xenófoba, não está no meu contexto, no meu livro. Quando falo em politicamente incorreto, estou falando mais de questões ligadas à hipocrisia da sociedade em relação a assuntos como drogas, uso da fé e outras questões... Da crença que algumas religiões usam como forma de manipulação, por exemplo. Bem, claro, nada justifica a violência, mas, na minha personagem, há um viés que é a vingança contra o sistema.
4) Você gosta de participar de eventos como o que te traz aqui, nesta terça-feira, ou seja, de se encontrar cara a cara com seu público?
Sim, há pouco estive no Piauí. Gosto muito, é uma maneira de canalizar a energia do diálogo, que já faço nas redes sociais. Mas, neste tipo de encontro, é olho no olho, tem tom de voz, flui melhor. Tempos atrás, eu falava muito de politica e questões sociais nos shows dos Detonautas, mas acabei percebendo que isso prejudicava as apresentações. Já há algum tempo comecei a frequentar saraus, venho fazendo desde a época do grupo Voluntários da Pátria, e agora, sozinho. Já estive em presídios, escolas, universidades... É muito válido.
5) Como lida com a agressividade que vigora nas redes sociais, posto que suas postagens têm uma penetração forte, são muito curtidas e replicadas?
É importante frisar que sempre tento não me colocar como vítima. Mas, sim, claro, acho que existe um movimento de ódio, de falta de respeito, de falta de bom senso e de falta de educação. A internet tem esse paradoxo, por um lado, permite que você exponha a sua opinião, mas, por proteger quem está de outro lado, faz despontar algo que certamente essa pessoa não exporia quando está em público. Muitas das pessoas que publicam posts agressivos, preconceituosos, teriam vergonha de assumir essas posturas em público, se veem protegidas pela tela. Eu mesmo me deparo com amigos que vejo com discursos que desconhecia, e isso me preocupa. O que fica parecendo, na verdade, é que uma parte considerável das pessoas vive sob o escudo de um personagem. O volume desse tipo de atitude que vemos é preocupante. Penso que essas pessoas começam assim, na internet, e, na sequência, partem para um retrocesso quase medieval, de perseguição, ameaças. Eu mesmo já sofri, danos ao meu carro, bilhetes sob a porta dos quartos de hotéis... Costumo dizer que a minha proteção são os olhos das pessoas. Mas, veja, não gosto de vitimizar, inclusive para não dar mais força a essas pessoas, dar a elas o poder de continuar. Se vejo comentários, vou, claro, ler, vou ponderar, vou ver o que falar. Mas as agressões não vão conseguir me acuar.
MAIS SOBRE TICO SANTA CRUZ
Tico Santa Cruz nasceu em 1977, no Rio de Janeiro. Cursou Ciências Sociais na UFRJ, Comunicação e Educação Física. Em 1997, formou a banda de rock brasileiro Detonautas Roque Clube, com cinco discos e três DVDs lançados, com mais de 500 mil cópias vendidas. Seu primeiro livro, "Clube da Insônia", também da Belas-letras, saiu em 2012, com textos reunidos de seu blog, que já ultrapassa a marca de 15 milhões de visualizações. Em 2013, lançou seu segundo livro,"Tesão", de poesias e textos eróticos. Foi colunista do jornal carioca "O Dia", entre 2007 e 2009. Formou o grupo de performance cultural Voluntários da Pátria que, desde 2006, trabalha com literatura, teatro e música, com temas relacionados a política e cidadania, levando debates a escolas, universidades e presídios. Com uma atuação bastante relevante nas redes sociais, Tico Santa Cruz posta diariamente textos em seu Facebook, com cerca de meio milhão de seguidores. Twitter: @Ticostacruz Instagram:@Ticostacruz