
Com quase 90 anos, que completará em 4 de março de 2015, Inezita Barroso é um ícone da cultura brasileira. Seu trabalho atravessa décadas e, sem dúvida, a tornou a grande dama da música caipira que interpreta e leva às casas brasileiras através da TV. Incansável, ela não para. E seu mais novo rebento é o recém-lançado DVD duplo, o primeiro de sua longa carreira, com show feito com a Orquestra Fervorosa e gravações com amigos e intérpretes do porte de Daniel, Renato Teixeira e Chitãozinho & Xororó.
Em “Inezita Barrosos – Cabocla Eu Sou” ela canta 31 canções, percorrendo um repertório de clássicos como “Ronda” (Paulo Vanzolini), “Moda da Pinga” (folclore), “Lampião de Gás” (Zica Bergami) e as brejeiras “Pingo D’Água” (João Pacífico), “Viola Quebrada” (Mário de Andrade) e “Flor do Cafezal” (Luis Carlos Paraná).
Em entrevista ao Hoje em Dia, Inezita Barroso fala da emoção do primeiro DVD e ressalta a força da música de raiz. “A música caipira é uma coisa muito forte e que sobrevive na memória das pessoas. Passa de geração em geração. No começo de minha carreira, cantei músicas populares e folclóricas com orquestras, também sambas e modinhas. Mas quando abracei a viola, uma das minhas paixões de criança nas fazendas dos meus tios, percebi que esse gênero é muito maior do que se costuma descrever no Brasil”.
Qual a emoção de lançar após 60 anos de carreira o primeiro DVD?
Fiquei muito contente mesmo com esse trabalho. DVDs musicais foram uma febre a partir do final da década de 1990, sempre via trabalhos bons sendo lançados, e também esperava fazer o meu. Bom que chegou em um ótimo momento e em uma edição dupla. O primeiro tem uma apresentação minha com orquestra e o outro é uma coletânea de mais de 60 anos de carreira, de filmes do cinema até apresentações recentes do “Viola, Minha Viola”, da TV Cultura.
Como foi o processo de construção do show que originou o DVD?
Eu havia cantado com a Orquestra Fervorosa em uma edição da Virada Cultura de São Paulo há uns quatro anos. Por convite deles, fiz uma apresentação no Palco da Estação da Luz de um repertório que mistura o popular e o folclórico. Aliás, há uma passagem triste: nesse mesmo dia da apresentação morreu a minha amiga e compositora Zica Bergami, a autora de “Lampião de Gás”. Ela faleceu quase no mesmo momento em que eu cantava a música dela, que é um dos meus sucessos. Fiquei muito triste. Posteriormente, a produção do “Viola, Minha Viola” levou essa mesma orquestra a uma apresentação especial na televisão.
E como foi?
Tocamos algumas músicas e gravamos o programa em formato ao vivo no Teatro Franco Zampari, em São Paulo. A apresentação ficou muito bonita e foi quando eu comemorei meus 60 anos de carreira, contados a partir do lançamento de meu primeiro disco ainda não comercial. Então, mais adiante, a produção do programa encaminhou o material para se transformar em um DVD.
Também mostra que seu trabalho é perene, vem atravessando gerações, e tem consistência...
Olha, não é só o meu trabalho. A música caipira é uma coisa muito forte e que sobrevive na memória das pessoas. Ela vem passando de geração em geração. No começo de minha carreira, cantei músicas populares e folclóricas com orquestras, também sambas e modinhas. Mas quando abracei a viola, uma das minhas paixões de criança nas fazendas dos meus tios, percebi que esse gênero é muito maior do que se costuma descrever no Brasil.
Poderia falar mais sobre ele?
É um número gigantesco de pessoas que ouvem, tocam e cantam música caipira. É claro que muitos ainda torcem o nariz, mas essa música da terra, da raiz brasileira e de origem rural ultrapassa fronteiras do campo e do tempo. Do campo porque está nas cidades. E no tempo porque os clássicos caipiras estão na boca das novas gerações como poucas vezes vi na minha vida. Quem quiser ouvir músicas da moda, as que todo mundo compra, tudo bem, a questão é que ninguém pode negar a força que a música caipira tem como parte da cultura brasileira.
Esse DVD perpassa toda a música caipira ou de raiz brasileira. E com participações de uma geração mais recente, como Renato Teixeira, Daniel e Chitãozinho & Xororó. A impressão é que nada ficou de fora...
É um trabalho bem representativo da minha carreira. Mas muita coisa acaba ficando de fora sim. Os dois DVDs possuem 31 músicas. Algumas se repetem porque estou acompanhada de orquestra e uma é raridade do arquivo da TV Cultura de décadas atrás. Fazer um disco ou um DVD sempre demanda escolhas. No caso dos convidados, tem muita gente que ainda quero gravar junto em um DVD. Existe cada encontro lindo no acervo do “Viola, Minha Viola”, que valia a pena fazer uma série. Já cantei lá acompanhada do Renato Borghetti, Yamandú Costa, Almir Sater, Sulino, Jair Rodrigues, Caçulinha, Cesar Menotti & Fabiano, Orquestra Paulistana de Viola Caipira, Papete, Paulo Autran, Lima Duarte... É tanta gente!
A escolha do repertório e dos participantes foi apenas sua?
Não. Um projeto desse tamanho envolve uma equipe grande. Na verdade, a proposta de fazer um DVD surgiu dentro da produção do “Viola” e foi uma surpresa para mim. O programa especial com orquestra ficou muito bonito e existe um grande acervo comigo na TV Cultura. Isso amadureceu para essa proposta do DVD duplo. Escolhi as músicas e o formato do especial com a Orquestra Fervorosa e a produção da Cultura ajudou na seleção das músicas do DVD 2 com a trajetória dos mais de 60 anos de carreira. Para isso, contei com o Nico Prado (diretor) e o Aloisio Milani (roteirista). Eles são da produção do programa e fizeram esse trabalho de garimpo. Acabou ficando um material muito especial.
Como foi sua reação ao ver o material registrado?
Confesso que me surpreendi com imagens que só havia visto na época das suas exibições, caso do programa “Música Brasileira”, de 1969, em que canto só com meu violão ou minha viola. Esse material foi recuperado de rolos de filme e está belíssimo.
O “Viola, Minha Viola” passa em todo o Brasil há décadas. Qual a importância do cinema em seu trabalho?
Bom, o cinema foi uma parte importante da minha carreira na década de 1950. Fiz sete filmes. Ganhei prêmios com alguns, inclusive o Saci de Cinema com “Mulher de Verdade” (1953). Foi um período muito fértil do cinema, do sonho de construir uma indústria como a europeia. Havia os grandes estúdios e muita gente talentosa trabalhando.
E da televisão?
Comecei na Record na metade da década de 1950 com o “Vamos Falar de Brasil”. Foram anos espetaculares, talvez os melhores da minha vida. Já a minha participação no “Viola, Minha Viola” começou em 1980. Primeiro como cantora convidada. Depois como apresentadora. Fazer cinema e TV, para mim, é uma extensão da minha carreira musical. De buscar emocionar o público com as lindas composições que só a música brasileira tem.