Se levarmos a cabo a ideia de que as comédias nacionais atuais representam uma atualização das chanchadas para salas de shopping, temos em "O Concurso" um exemplo de apropriação de temas de filmes hollywoodianos, ingrediente presente na cartilha do gênero nas décadas de 40 e 50.
Longas como "Matar ou Morrer" e "Nem Sansão nem Dalila" satirizam à moda brasileira os elementos e temas em voga na época, como o faroeste e os filmes religiosos. O desafio de "O Concurso" é justamente se escorar numa produção de humor negro extremo: "Se Beber, Não Case".
Sai de cena a paródia, baseada na relação entre países de primeiro e terceiro mundos, e entra a imitação quando quatro pessoas têm suas vidas viradas do avesso de um dia para o outro, após algo dar errado. O restante da narrativa está calcado na descoberta do que motivou essa transformação.
Jeitinho
Três dos personagens são certinhos, tentando levar suas vidas dentro das regras de bom comportamento. Um acréscimo interessante dos roteiristas de "O Concurso" é torná-los advogados que buscam passar numa prova para juiz federal.
O quarto integrante é o equivalente a Zach Galifianakis, intérprete do amalucado Alan de "Se Beber". Ele perverte os demais, tirando-os de sua rota segura a partir da figura do malandro carioca que dá um jeitinho para sempre se dar bem.
Ao final, tanto em "Se Beber" quanto em "O Concurso" a sensação é de que, apesar das perdas materiais e financeiras, eles tiveram uma vitória pessoal, um aprendizado que os fez enxergar além de seus interesses e que não poderia ter ocorrido de outra forma, ainda que estressante e perigosa.
Como nas chanchadas, predomina no brasileiro o olhar carioca de desbunde e jogos de oposições como a forte religiosidade nordestina e os céticos homens de negócios do sul, a estampa de machão dos gaúchos e a liberdade sexual no Rio, etc.
Frouxo
A dificuldade do filme é não imprimir um ritmo engraçado para amarrar esses ingredientes, tornando o resultado frouxo e pouco fluido. A graça se reserva a um e outro momento, como o toque de um celular com som de rádio patrulha que sempre desencadeia situações inusitadas.
Os primeiros dez minutos servem como termômetro, com um apresentação burocrática dos personagens antes de partirem para a capital fluminense. A atuação desigual do elenco e a edição sonolenta também contribuem para um filme que fica bem aquém das últimas globochanchadas.