Intervenções urbanas são antídoto contra toda forma de guerrear

Clarissa Carvalhaes - Hoje em Dia
Publicado em 05/04/2015 às 11:59.Atualizado em 16/11/2021 às 23:30.
 (Carlos Henrique/Hoje em Dia)
(Carlos Henrique/Hoje em Dia)
Futebol, posições políticas, debates sobre questões sociais prementes. Não são poucos os temas que, ao serem discutidos – no plano virtual ou “real” – acabam levando interlocutores ao conflito. É inegável: vivemos tempos de acirramento de posições, tempos de beligerância. A boa notícia é que, em contrapartida, há quem esteja (muito) preocupado em espalhar amor pelas grandes cidades, ao melhor estilo “faça amor, não faça guerra”, que pautou os anos 60/70.
 
Gente como Paloma Parentoni, que promove intervenções urbanas dentro do seu “Trajeto do Afeto”. O objetivo das ações é, resumidamente, resgatar memórias de outros tempos – e, desta forma, dar uma pausa no cotidiano corrido que vivemos para relembrar momentos guardados dentro de cada um. Para tanto, ela se vale de barquinhos de papel. “Por ser um objeto de estética amorosa que fez parte da infância da maioria, é uma proposta que pulsa, mesmo que sem perceber, em todas as pessoas. Logo, o projeto sempre é muito bem recebido e as reações sempre são amorosas”.
 
Aliás, Paloma confessa que são as reações das pessoas que mantêm o projeto vivo até hoje. “Elas se envolvem com a proposta, sempre recebo barquinhos em casa via correios, na intenção de intercâmbio de afetos. As pessoas enviam fotos e escrevem sobre o trabalho”, brinda ela. 
 
A artista concorda que o amor está, sim, no ar. E não só em Belo Horizonte, mas em todos os lugares. “O que acontece é o esquecimento, no nosso cotidiano, das formas de demonstrar amor e, por isso, o projeto é importante e duradouro. Ele é uma das ferramentas existentes no imaginário das pessoas e das cidades e que ajuda a resgatar este sentimento – nem que seja por alguns instantes”, diz ela.
 
Gestos individuais fazem a diferença 
 
Thereza Portes não se furta a oferecer, ao próximo, uma mesa farta, com café coado na hora. Lucas Aguiar anda ocupado em divulgar corações por BH. São, os dois, outros exemplos de artistas comprometidos com a ideia de espalhar amor, gentilezas, mimos. “A ação da mesa nasceu há cinco anos, depois de uma ocupação pelo Instituto Undió, da casa dos meus avós, no centro”, diz Thereza, referindo-se à “Mesa Para Thereza”.
 
“Na infância, via meu avô, médico, preocupado com a qualidade de vida das pessoas de rua, uma extensão da casa, pessoas entravam e saíam o dia inteiro. E a cada um que entrava era servido um café, coado na hora. A mesa estava sempre posta”. 
 
A mesa de café é, pois, uma reedição da própria vida. “O café passou a se repetir na rua, coado na hora e com a mesa posta. Passou a ser uma forma de intervenção e aproximação de pessoas que transitam em um centro urbano”. 
 
A história de Lucas também é bem curiosa. Em 2012, ele largou três anos de engenharia civil sem ter ideia do que faria. Depois, foi cooptado pelo Design Gráfico. “Em meados de 2014, em uma revista qualquer, li a palavra ‘coração’, porém, pela divisão das páginas, ela estava separada: cor-ação. Imediatamente desenhei um coração, todo colorido, em aquarela. No dia seguinte, fiz a ilustração de outro, porém com um tema específico. Daí tive outra ideia e assim por diante. Juntei o útil ao agradável”, diz ele, que postava tudo no Instagram. 
 
Realização
 
“O numero de seguidores foi crescendo. Comecei a achar estranho, mas continuei. Pus em prática, também, ideia que já admirava muito em SP, o #txturbano, no qual pessoas colam adesivos pelas ruas, com frases poéticas. Já que seria pertinente unir um coração humano com poesia, fiz alguns adesivos e colei por aí”. Menos de nove meses desde o primeiro coração e 18 mil seguidores a mais, Lucas tenta manter o “trabalho” com mais frequência. “Me sinto realizado fazendo isso tudo”, diz ele.
 
O cantor e compositor Gustavito só faz uma ressalva: “As festas com a palavra ‘amor’ no nome estão na moda, mas o real valor do amor é algo que atravessa o tempo, as gerações e as distâncias justamente porque não dá para definir com precisão o seu sentido, ao mesmo tempo que toca toda e qualquer pessoa, provocando algum tipo de entendimento”. E mais não precisa dizer.
 
Com seu "Trajeto do Afeto", Paloma Parentoni foi, em 2012, aprovada no Premio Funarte Artes Visuais. "E assim a ideia se concretizou, passando, naquele ano, por sete cidades brasileiras com intervenções urbanas e atingindo muito mais do que se imaginava quando o projeto foi aberto para todos que quisessem se envolver com a ação proposta, alcançando também o exterior. De um modo geral, ela explica que o objetivo das ações, no que tange ao resgate de outros tempos, é dar uma pausa no cotidiano corrido que vivemos para relembrar momentos que vivem guardados dentro de cada um. "Os barquinhos levam um 'respiro' ao público, que se envolve e me coloca neste estado de pausar quando recebo o material mais uma vez, entendendo e renovando a potência que o projeto tem", esclarece, acrescentando que sim, o amor está mesmo no ar, e não só em BH. "Mas em todos os lugares. O que acontece é o esquecimento, no nosso cotidiano, das formas de demonstrar amor e, por isso, o projeto é importante e duradouro, ele é uma das ferramentas existentes no imaginário das pessoas e das cidades que ajudam a resgatar este sentimento, nem que seja por alguns instantes". 
 
O café de Thereza Portes afere a mesma receptividade do trajeto de Paloma: tanto que já foi realizado em outros eventos, como a Virada Cultural, Festival de Verão da UFMG, inauguração da nova sede do Miguilim Cultural, Mostra de Direitos Humanos, Festival de Arte e Cidade de Porto Alegre, Dia Mundial da Água e Festa de Pai Benedito no Quilombo Manzo, além de ser um projeto permanente do Instituto Undió, através do "Projeto Nessa Rua tem um Rio" e do Ambulatório São Vicente de Paula, localizado na Faculdade de Medicina. "Foram inúmeros cafés na rua, servidos em mesas com mais de 10 metros de comprimento e mais de 500 xícaras doadas por moradores de centro de BH e amigos. Hoje o projeto se amplia e convida o publico a bordar uma grande toalha, incentivando as pessoas a conviverem coletivamente, multiplicando a ideia de uso afetivo da cidade", repassa a artista. A proposta é promover o diálogo entre os participantes a partir das histórias do centro de Belo Horizonte. Uma síntese dessas conversas, que podem ser representadas por palavras, frases ou desenhos, estáa sendo bordada em uma toalha coletiva, usada para forrar a mesa de café compartilhada na rua. "Procuro promover a participação da população em geral, promovendo um deslocamento de valores, um sentido de inclusão, integrando diferenças, acolhendo participantes múltiplos, de diferentes meios sociais, faixas etárias, níveis de escolaridade e familiaridade com a arte".
 
Na maioria das vezes, segue Thereza, as pessoas recebem muito bem a mesa, mesmo que de início um pouco desconfiadas e surpreendidas, sempre participam da ação. "Não foi incomum, ao longo dos cinco anos, alguns transeuntes ajudarem a colocar a mesa e, ao final, recolher e separar a louça usada da limpa, ou ainda oferecer para coar um café e eles mesmos servirem às outras pessoas que se aproximavam, curiosas e reticentes. As que chegavam ao final da ação e assistiam ao ato de desmontar a mesa, dobrar a toalha, recolher a indumentária, separar as sobras, varrer a rua, também se surpreendiam com o uso do espaço público de forma familiar e agregadora". Ao longo dos anos, a mesa alcançou o tamanho de 40 metros e Thereza começou a receber xícaras doadas pelos frequentadores de seus cafés. "Cada um passou a levar sua xícara e contar histórias sobre ela. Surgiam memórias de famílias, de amores passados, de amizades, histórias engraçadas e dramáticas".
 
Sendo assim, a população em geral abraçou o projeto e vem doando ao longo dos anos, as xícaras usadas para mesa, tendo uma coleção de 500 xícaras doadas.. . Quase todas, porém, foram levadas na Virada Cultural... Antes de se despedir da reportagem, Thereza aproveita para rememorar uma cena que ficou tatuada em sua mente. "Um motorista de ônibus da Padre Belchior já interrompeu o trânsito umas três vezes... P arando o ônibus cheio de passageiros bem colado na mesa e pedindo um gole de café com bolo. Nós servimos a xícara na janela do ônibus, ele toma e devolve a xícara...e vai embora! É lindo! Não podemos divulgar a linha de ônibus para não dar problemas", brinca.
 
E para Thereza, existe amor em BH? "Penso que é preciso resgatar as relações entre as pessoas e as suas cidades... assim, 'talvez' tenhamos uma cidade mais amorosa. Acho que estamos mais atentos na busca desse amor, ocupando e compartilhando os espaços públicos que acabam integrando as diferenças. Mas existem muitas cenas de amor em Belo Horizonte: uma vez presenciei um grupo de meninos de rua reunidos que estavam com alguns biscoitos e sucos... Sentados na calçada, deram-se as mãos e rezaram juntos antes de comer...depois compartilharam o lanche entre eles", emociona-se.
 
O início, o fim e o meio
 
Para o cantor Gustavito, um dos expoentes da nova safra da boa música feita em Minas, o amor sempre existiu e sempre existira em todas as partes, ao mesmo tempo, no inicio, no fim e no meio, antes, durante e depois, basta ter olhos para ver. "O mais importante, salienta, é encontrar formas de manifestar essa existência, que é de celebração e luta. "Celebração da união entre as pessoas, do sentimento de generosidade e regozijo. Luta contra tudo aquilo que não é amor em BH, que são muitas e muitas coisas. Nossa sociedade infelizmente é conservadora e insiste em favorecer interesses milionários e individuais das elites que dominam a indústria automobilística, as grandes marcas, a mineração e a política. Há amor em todos os movimentos que buscam a contramão desse sentido, buscando valorizar o coletivo e a libertação individual de cada ser humano", prega.
 
Em BH, prossegue o moço, existem diversos movimentos de ocupação dos espaços públicos de forma temporária ou permanente, bem como debates e discussões e práticas avançadas em relação ao consumo consciente, ciclismo, transformação da política habitacional, a festa pública e o carnaval, Yoga e alimentação natural, práticas de medicina alternativa, advogados populares, preservação de áreas verdes e criação de parques nos bairros, permacultura e agricultura urbana, diferentes oficinas e grupos de educação musical pelos tambores, liberdade de crença e religião, sincretismos, arte de rua e mais... "Nas periferias e favelas há um movimento cultural muito forte, desde as antigas guardas de congado aos sambas tradicionais, escolas de samba, grupos de capoeira até o movimento hip-hop, black-soul e o movimento de saraus de BH e toda a região metropolitana. Aí existe muito amor".
 
Incentivado a falar se a música feita em Minas reflete essa postura paz e amor, ele é mais reticente. "Não sei se existe exatamente uma postura tão paz e amor assim. Não acredito que as letras da maioria dos compositores da minha cidade e geração possam ser agrupadas sob este rótulo. Sem dúvida, queremos viver em paz e propagar o amor, mas para isso tem que ter muito enfrentamento e luta. Estivemos todos presentes nas jornadas de junho, em BH já é comum a realização de shows e eventos em espaço público em caráter de 'show-manifesto', no centro da cidade e em outras regiões também. Estamos ao lado das ocupações urbanas e das lutas antimanicomiais além de todas as outras citadas".
 
Mas sim, ele entende que as canções de todos os tempos sempre tiveram, em boa medida, que falar de paz e de amor, "porque são coisas boas de ser cantadas". "A música que é cantada quando proporciona prazer, e se estiver falando palavras que estimulem esse sentimento, vai ter mais poder. A postura da paz e do amor é natural em qualquer pessoa que busque a comunhão no lugar da competição, e a generosidade no lugar da ganância". 
 
 
Lucas Aguiar, o moço que distribui corações pela capital mineira, diz sentir o carinho do público quando as pessoas param para falar com ele sobre o "He-arts". "As pessoas realmente se sensibilizam com a poesia. Claro que não dá para falar de poesia com quem não é poético, e isso me fez descobrir que existe muito mais pessoas poéticas do que eu imaginava. É tudo muito positivo. As pessoas que vêm se aproximando são pessoas que facilmente seriam minhas amigas. A repercussão na internet foi gigante, tendo em vista que eu não esperava nada disso". Depois desse projeto, ele diz se sentir uma pessoa privilegiada por encontrar tantas pessoas legais, "através de algo que faço com minhas próprias mãos". "Muitas pessoas têm se aproximado, pessoas que se identificam com a personalidade que tento mostrar pelos desenhos e pela poesia. Eu realmente me senti menos sozinho no mundo, consequentemente, descobri amor em BH em cantos que eu jamais imaginava. O amor está aí mas não adianta só saber que ele existe, tem que pratica-lo". E, neste domingo de Páscoa, mais não precisa dizer.
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