
As exatas 68 trouxas de roupa que a mineira Maria Elizabete Jorge lavava religiosamente a cada semana eram transportadas nas costas, com o auxílio de uma mochila do Exército americano– com as mãos livres, ela buscava forças para driblar, de bicicleta, o sobe-e-desce das ruas da cidade de Viçosa, com destino à casa de seus clientes. Foi essa mesma energia que fez dessa também ex-faxineira e entregadora de pizza um ícone da modalidade levantamento de peso no Brasil, disputando os Jogos Olímpicos de Sydney, em 2000. Na época, ela contabilizava 43 anos de idade. “Minhas forças estão aumentando até hoje”, avisa Maria Elizabete.
Atualmente com 56 anos e ainda disposta a representar o país nos jogos, “disputando marca de igual para igual com os mais jovens”, a primeira brasileira a competir na citada modalidade será tema de documentário “Bete de Peso”, dirigido por Kiko Mollica, outro viçosense (por seu turno, nascido em 1970).
Orgulho
“Ela é motivo de orgulho na cidade. Todo mundo conhece a história dessa guerreira, que faz um trabalho social com crianças de periferia, para que outros tenham oportunidades”, assinala Mollica, que conseguiu aprovação do filme no projeto “Memória do Esporte Olímpico Brasileiro”. Ao lado de realizadores de outras oito produções sobre atletas olímpicos, ele assistiu, no início da semana, em São Paulo, a palestras de especialistas como a “geração de prata” (Jogos de Los Angeles, em 1984) da equipe masculina de voleibol.
Bete, aos 56 anos, ainda está disposta a representar o país nos jogos (Foto: COB/Divulgação)
A proposta do filme é recuperar o percurso de Elizabete: de sua origem humilde às Olimpíadas (quando terminou em nono lugar na categoria 49 quilos), passando pelo preconceito sofrido pelo estigma de “mulher musculosa”.
“O trabalho de lavar e estender roupa me ajudou com os movimentos de arranque e arremesso do peso. Mas nunca imaginei que chegaria a campeã. Entrei na modalidade por entrar, porque sempre gostei de esporte. Com pouco mais de um ano já disputava e ganhava torneios”, registra.
Um exemplo para as crianças de Viçosa
Ao longo do tempo, Maria Elizabete Jorge foi paulatinamente deixando as competições de lado. Não porque o corpo já estivesse dando sinais de cansaço ao levantar pesos acima dos 150 quilos. “É que, depois de participar dos Jogos Olímpicos de Sydney, os meninos de Viçosa começaram a se interessar pelo esporte e não tive mais tempo de treinar”, explica.
Sem nenhum incentivo financeiro, contando apenas com o apoio da Prefeitura Municipal, que cedeu o espaço para o funcionamento escolinha, a atleta passou a treinar crianças de várias idades. “São meninos carentes, que moram nos bairros distantes do centro da cidade. Não temos muita estrutura, um exemplo é a falta de cobertura do local”, lamenta ela.
Exemplo
O que a atleta busca incutir em seus alunos é a alternativa de uma vida melhor que seria proporcionada pelo esporte. E Elizabeth seria o maior de todos os exemplos: a ex-lavadeira conheceu nada menos que 28 países enquanto competia. “Quem é que já teve a chance de viajar para tantos lugares diferentes? Tento mostrar o caminho para eles”, esclarece.
É seu primeiro “empurrão” veio com a mãe, que sempre a estimulou a praticar algum esporte. Maria foi “goleira” de handebol, jogou basquete, praticou atletismo, fez natação, lutou taekwondo e, não bastasse, esteve em rodas de capoeira. “Uma verdadeira salada”, conclui, rindo. Apesar dessa variedade, demorou a aderir ao halterofilismo.
Foi preciso que um engenheiro colombiano, de nome David Montero, que cuidava da pista de atletismo da Universidade Federal de Viçosa, insistisse muito para que Maria Elizabete vencesse o seu próprio preconceito. “Em 1978, ele me viu correndo e me convidou. Fui curta e grossa, dizendo que preferia continuar correndo”, recorda.
Glúteos "durinhos"
No fundo, o que atleta mais temia era ficar musculosa e perder a feminilidade. “O professor Davi voltou a me convidar em 1986 e acabei entrando em 1991. Ele me explicou que a mulher só fica musculosa se ingerir anabolizante. Percebi que a gente fica até mais bonita, sem gordurinha e com pernas e glúteos mais durinhos”, ensina.
Atualmente, o corpo de 56 anos ainda dá boas respostas, o que anima a mineira a retornar ao esporte profissional. “Ainda tiro 160, 180 quilos das costas dos meus alunos, pois tenho medo de que eles não consigam jogar a barra para trás. O professor sempre fala que eu deveria ser estudada para descobrir como mantenho essa força”, diz, toda orgulhosa.
Mas um eventual retorno às competições não deverá acontecer no levantamento de peso. Maria Elizabete Jorge quer mesmo é disputar provas de ciclismo de estrada. “Ando de bicicleta o tempo inteiro. Recentemente o canal ESPN veio aqui para fazer uma matéria comigo e os funcionários se juntaram para me dar uma Caloi 10”, relata, toda feliz.
Humor e suspense
No filme que o diretor Kiko Mollica pretende fazer sobre ela, haverá espaço também para o humor, o suspense e até mesmo a ficção. “Não será um docudrama, mas quero usar imagens de crianças correndo. Já temos material sobre a época em que a Bete fazia atletismo. A ideia é criar alguns artifícios para fugir de um documentário com talking head (com gente falando para a câmera)”, adianta ele.
Vinhetas engraçadas deverão ser usadas pelo cineasta para explicar as regras da modalidade levantamento de peso, enquanto o suspense entrará em cena no momento em que a atleta está em competição, recorrendo a notícias dos jornais da época que destacaram seus feitos. O colombiano David Montero, “padrinho” de Elizabete, e seu filho Enrique, que hoje preside a Confederação Brasileira de Levantamento de Peso, serão alguns dos entrevistados.