A "rainha do samba-jazz" Leny Andrade canta clássicos da MPB, nesta terça-feira (9), às 20h30, em BH, acompanhada do instrumentista Célio Balona e seu Quinteto, por meio do projeto "Mistura Minas", no Teatro Bradesco (rua da Bahia, 2244, Lourdes). No segundo semestre, quando comemora 70 anos, Leny lança o disco "Las Canciones del Rey", com músicas de Roberto Carlos em espanhol. Ainda no pacote dos festejos, já está disponível a biografia da cantora, intitulada "Alma Mía", da escritora Regina Ribas, pela Coleção Aplauso (Imprensa Oficial de São Paulo). Em entrevista ao Hoje em Dia, enquanto arrumava o acervo de 52 anos de carreira, em sua própria casa, Leny lembrou de amores, amigos, desarrumações e "canciones".
São quantos anos de carreira?
Você vai falando, pois estou no meio de uma desarrumação. Chega uma hora que não tem mais onde guardar tanta coisa, fruto de 52 anos de carreira.
Então, você está encontrando muita pérola por aí?
Tudo é pérola. Tem fã que manda coisas já em quadro, pra eu colocar no lugar. Escute o que diz este, que é presente de uma amiga: "Plante um pensamento, colha uma ação. Plante uma ação, colha um hábito. Plante um hábito, colha um caráter. Plante um caráter, colha um destino". Aí tem um Buda sentado, com essa mensagem. Ela é irmã de uma outra amiga minha, que faleceu de câncer. Uma mulher absolutamente deslumbrante foi embora. Era como uma irmã. Isso já tem uns vinte anos. E eu ainda não consigo falar disso sem chorar...
É que o vínculo de amor nunca termina.
É isso, temos muitos amores na vida da gente... Recentemente, em um show, em Niterói, chorei em frente da plateia. Falei que cantaria uma canção que há muito tempo não incluía em show, mas que foi feita para os cantores. É do Dori Caymmi, com uma letra magnífica do Nelson Motta. Chama-se "O Cantador". Não botei na lista do show com o Balona, mas juro que vou cantar. Estou fazendo isso por causa do Emílio (Santiago).
Essa música lhe veio à cabeça pelo somatório dessas lembranças?
Temos amores que entram em nossa vida, mas que, de repente, a gente fica sem eles. Eu fiquei sem pai nem mãe quando o Emílio foi embora. Todos nós que somos amigos do Emílio, ficamos com a sensação do desaparecimento. Quando os amores são muito grandes e que vão embora da vida da gente, a gente não fica pensando: "Ah, fulano morreu". Não! A gente fica com a sensação de que ele não morreu, mas que desapareceu.
Você acredita em vida após a morte?
Sem dúvida alguma. E também sou exotérica dos pés à cabeça. Tenho uns quarenta quilos de pedras na minha casa. Eu diria que vinte quilos são de Minas. São puras, não passaram por máquina alguma. Eu gosto muito de pedra bruta. Minas é o estado mais iluminado do Brasil. Está tudo debaixo da terra. Os cristais rolam aí. Se você visse a minha coleção... Tem pedra que tem água dentro. Todas são lindas. Toda vez que eu vou aí é um problema, pois sempre trago alguém. Alguma 'pessoa de pedra', como diriam os índios. Essa é a minha vida simples. Eu preciso de meditar, de silêncio.
Você mora onde aí no Rio?
Moro em Botafogo, há 45 anos, no mesmo prédio. Eu passei para os fundos há oito anos, aí fiquei de frente para o Cristo. Antes, eu estava de frente para o mar.
Você canta em casa?
Canto, sim. Quando pego alguma música que me mandaram ou reviso alguma coisa que fiz. Donato (João) me mandou cinco inéditas. É uma responsabilidade. Estou coberta de compromissos para fazer discos novos. O disco do Roberto Carlos ainda não saiu.
Como vai se chamar?
"Las Canciones del Rey". Músicas que ele fez, mas tudo em espanhol.
O Roberto Carlos já ouviu?
Ele deve ter ouvido, senão, as autorizações não teriam saído. Seria bom se fosse para comemorar os 70 anos. Eu sou especialista em espanhol. Diz o Miele (produtor e cantor), que ninguém canta em espanhol no Brasil como eu. Embora, quem tenha sido casada com um venezuelano tenha sido a Nana Caymmi. Ela vai ficar meio "p da vida" se ouvir isso. (Risos) ...Mas não fica nada. Ela é minha amante, minha amada. A Nana, a Alcione. A gente é da mesma tribo. "O delegado é o mesmo", como diria o João Nogueira. Tá tudo certo. Sairá pelo selo Albatroz. Já fiz três shows com metade desse repertório. O João Carlos Coutinho, o Roberto Menescal e o Raymundo Bittencourt reescreveram alguns arranjos.
E esse título de "rainha do samba-jazz", como o vê hoje?
Até cantando Roberto Carlos coloco um pouco de jazz. Tem ainda um disco com músicas do Ivan Lins, que vou fazer. É fazer e colocar na rua. Estou quase chegando aos 40 discos. Eu não sei quem me deu esse título. O Tony Bennett me chama de "Ella Fitzgerald brasileira". Tenho vários desenhos dele. Ele vai para o meu show e me desenha.
E sobre essa sua facilidade em cantar notas graves?
Eu cultivo isso muito. Eu acho que a cantora quando canta apenas fino, vira uma cantora sem tesão. No disco em que canto Cartola, achei que deveria fazer "Acontece" bem baixo. Aí, disseram que estava muito baixo. Expliquei que nesse "Acontece", o Cartola está sentado em frente a uma amante dele - evidentemente, que não era Dona Zica – e que era ele terminando uma situação romântica da vida. Isso é uma fala. É um pedido de desculpa. Por isso, tem que ser num tom assim.
Como é sua rotina de trabalho?
O meu negócio é fazer shows. Cantar, cantar, cantar até estourar, que nem cigarra. Quando pego no microfone esqueço que estou com dor de qualquer coisa. A música é um ser espiritual para o qual eu trabalho.
E o improviso? E esse "rouquinho" que você tem na voz, é natural?
Herança da minha diva maior que se chama Dolores Duran. É por isso que eu canto assim. Foi com ela que eu comecei a improvisar, não foi com Ella Fitzgerald. Eu nem sabia quem era Ella. Quando ela gravou: "Eu desconfio que o nosso caso está na hora de acabar..." ("Fim de Caso", 1959). Termina a canção e ela começa a improvisar. Fui para o piano e pensei, eu estudo piano clássico, mas canto popular e consigo fazer isso. Eu tinha 12 anos. Mas até falando, tenho esse rouquinho. É uma marca registrada. Eu abro a boca e o povo sabe que sou eu cantando. Vai fazer o quê? (risos)
Você ainda enfrenta muito desafio com a voz?
Eu desconfio que eu ainda tenha um pouco mais de duas oitavas. Talvez eu não chegue a três oitavas, como "dona Dalva" chegava.
Nem a dona Angela Maria...
A dona Ângela estava com um problema no coração. Tratou, agora está cantando como se tivesse 25 anos de idade. Só que ela tem 80 e poucos! Eu não sei se Papai do Céu vai me dar essa chance. Vamos nessa, senhor! (risos)