Literatura perde a romancista Nadine Gordimer, vencedora do prêmio Nobel

AFP
Publicado em 15/07/2014 às 08:05.Atualizado em 18/11/2021 às 03:23.
 (Tiziana Fabi)
(Tiziana Fabi)
JOHANNESBURGO – A sul-africana Nadine Gordimer, Prêmio Nobel de Literatura em 1991, morreu no domingo, aos 90 anos, em sua residência em Johannesburgo. “Seu maior orgulho”, recordaram os filhos, em comunicado, “não foi ganhar o Nobel, mas ter testemunhado, em 1986, ajudando a salvar o vida de 22 membros do Congresso Nacional Africano acusados de traição”.
 
A romancista colocou seus textos a serviço da luta contra o apartheid e sempre se recusou a deixar a África do Sul, mesmo nas horas mais sombrias da segregação. Elegante, esta filha de imigrantes judeus desenvolveu uma prosa que fazia jus à sua imagem: simples, sutil e intransigente. Escreveu 15 romances e contos, alguns dos quais foram censurados durante o apartheid. Com retratos de grande introspecção psicológica, relatou as ambiguidades de seus compatriotas. 
 
Em ‘The Conservationist’ (1974), imagina o desconforto de um rico afrikaner que se vê com o cadáver de um de seus empregados negros nos braços. Em ‘July’s people’, de 1981, descreve o estado emocional de uma família branca obrigada a refugiar-se na casa de sua empregada doméstica.
 
“Sua obra é sensível à vulnerabilidade de indivíduos forçados a fazer escolhas políticas, mas sem piedade ao descrever as falsas aparências da boa consciência”, resumiu, em 2007, o embaixador da França em Pretória, Denis Pietton, ao entregar-lhe a Legião de Honra.
 
Nascida em 20 de novembro de 1923, Nadine cresceu em um bairro rico de Springs, ao leste de Johannesburgo. Sua mãe, convencida de que ela sofria de uma doença cardíaca, retirou-a da escola.
 
Frequentou regularmente bibliotecas e começou a escrever aos nove anos. Publicou o primeiro romance aos 15 anos em uma revista local. “Anos mais tarde, percebi que se fosse negra, provavelmente não me tornaria uma escritora, uma vez que as bibliotecas que frequentava eram proibidas a eles”, disse, ao receber o Nobel.
 
Nadine continuou a escrever após o democratização de seu país, em 1994, e, apesar de sua idade avançada, continuou a apontar as falhas dos sucessores de Nelson Mandela no novo regime.
 
Nadine se engajou na luta contra o apartheid após a prisão de um amigo próximo, em 1960. Tornou-se membro do Congresso Nacional Africano (ANC), então proibido, e ajudou militantes procurados. Ligada a advogados de Nelson Mandela, foi uma das primeiras figuras que o ícone da luta anti-apartheid pediu para ver após sua libertação, em 1990.
 
Nadine se casou duas vezes e teve um filho de cada matrimônio. 
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