
O longa-metragem “Hannah Arendt” (2012, 113 minutos), que chega agora às locadoras, pode, sim, padecer de alguns vícios, como um certo, digamos assim, didatismo – embora, evidentemente, é possível que seja uma escolha da direção insuspeita de Margarethe Von Trotta.
Mesmo o tom adotado pela atriz Barbara Sukowa, responsável por dar vida à filósofa alemã de origem judaica, pode soar algo teatral, mas o recorte de um evento balizador de sua vida é de fato instigante e de certa forma corrobora para a compreensão
O aludido recorte tem como porta de entrada o episódio, ocorrido em 1961, no qual Arendt se oferece à respeitada New Yorker para acompanhar o julgamento de Adolf Eichmann, um dos mais notórios signatários do regime nazista, que seria realizado em Jerusalém. Detido na Argentina em 1960, pelo Mossad, Eichmann (1906 – 1962) foi acusado de 15 ofensas, incluindo a de crimes contra a humanidade.
A essa altura, como se sabe, um nome de impacto nos meios acadêmicos, Hannah tem seu pedido aceito pela redação da revista – ainda que não por unanimidade. Ao acompanhar o julgamento, porém, Hannah é assolada por uma série de questões e empurrada em direção a um redemoinho de dúvidas que, por seu turno, faz com que o texto prometido à publicação se equipare – não cronologicamente – a um parto. Finalmente publicado, a reação que suscita é avassaladora.
Ao “ousar” tentar entender, decifrar a cabeça do inimigo, ela, que chegou a ser levada a um campo de internação, sofre um processo de linchamento moral espelhado inclusive no afastamento de alguns dos que considerava amigo e na execração pública. Apontada por alguns como arrogante, traidora de seu povo – ao acusar líderes judeus de terem cooperado com o regime nazi – a fortaleza Hannah chega a ruir momentaneamente, com direito a lágrimas.
Curiosamente – ou não – são os jovens que a amparam no momento mais espetacular desta empreitada fílmica. Na concorrida aula em que Hannah finalmente faz seu desabafo ante o massacre que a assola, é uma estudante que serve de escada para que a professora dê início a um raciocínio que cala fundo em qualquer ser humano que reconheça seu diferencial em relação a outros seres vivos: o fato de pensar.
"O maior mal do mundo é o perpetrado por ninguém"
Arendt defendeu que o maior mal do mundo é o mal perpetrado por ninguém, exemplificando com o discurso adotado por alguns nazistas nos julgamentos pós-guerra, o de que não agiram por iniciativa própria ou premeditadamente. Seres humanos que se recusam a ser pessoas, diz ela, que, através de suas teorias, aponta a “banalidade do mal”.
A citada cena em que Hannah, na universidade, fala a alunos e a alguns de seus antigos companheiros de conversas, é tão impactante (descontado, como dissemos, o certo tom empostado adotado pela atriz) que vale a pena reproduzir o discurso: “Tentei conciliar a chocante mediocridade desse homem com seus atos abomináveis. Tentar entender não é o mesmo que perdoar.
Minha responsabilidade é entender. E é a responsabilidade de qualquer um que ouse escrever sobre essa questão.
Desde Sócrates e Platão que geralmente se referiam ao pensar como o diálogo silencioso travado consigo mesmo. Ao recusar-se a ser uma pessoa, Eichmann abdicou totalmente da característica que mais define o homem como tal: a de ser capaz de pensar. Consequentemente, se tornou incapaz de fazer juízos morais. Essa incapacidade de pensar permitiu que muitos homens comuns cometessem atos cruéis numa escala jamais vista”. Sublime.