Luzes sobre o artista mineiro Hogenério Pereira da Silva

Clarissa Carvalhaes - Hoje em Dia
Publicado em 16/03/2014 às 07:53.Atualizado em 20/11/2021 às 16:39.
 (André Brant/Hoje em Dia)
(André Brant/Hoje em Dia)

As luzes que mantinham Belo Horizonte acesa durante a noite deixaram Hogenério Pereira da Silva insone. Era a primeira vez que o garoto, nascido em Felisburgo, Vale do Jequitinhonha, e criado por três anos no interior da Bahia, via de perto uma metrópole daquele tamanho. “Tinha 12 anos de idade e fiquei encantado com as luzes da cidade. Essa coisa da metrópole me fascinou de primeira. Eu me lembro que não consegui dormir, fiquei a noite toda pendurado na janela”, recorda. 

De lá pra cá, muitas luzes se apagaram e se acenderam na capital mineira. Hogenério vem acompanhando tudo desde então.
 
Filho de pai fazendeiro e mãe dona de casa, decidiu por intuição seguir a carreira de artista plástico. Em 1990 fez seu primeiro quadro, em 1991 pintou um retrato de Andy Warhol (1928–1987) e em 1992 desenhou James Dean (1931–1955). 
 
“Um amigo viu as telas e perguntou se eu não topava fazer uma mostra. Eu fiquei receoso no início, mas decidi aceitar. Sei que a atitude foi muito corajosa porque a maior parte dos artistas começa a expor em mostras coletivas e eu já fiz direto uma individual. Só que eu pensava: ‘já estou dando minha cara a tapa mesmo, então vamos com tudo”, diz aos risos. 
 
Prestes a completar 51 anos de idade no próximo dia 24, o menino tímido que ousava costurar a própria roupa porque não achava nada que combinasse com ele celebra os frutos que colhe na profissão e, sobretudo, o próprio renascimento, que se deu após um grave acidente que por pouco não lhe tirou a vida.
 
“Ainda hoje não entendo o que aconteceu de verdade. Tento me lembrar, mas é como se aquele 19 de janeiro de 2012 tivesse sido apagado da minha memória. O que sei é que por muito tempo desejei ter morrido. Sabe, nunca falei sobre isso tão abertamente, mas realmente quis morrer, só nunca tive coragem para puxar o gatilho”.
 
Depois de bater no liquidificador
 
“Eu acredito que quando somos sinceros com nós mesmos, as coisas fluem naturalmente. Então, sendo bem honesto, acredito que quando um artista cria, ele quer mostrar seu trabalho para todo mundo. Quando fazia minhas próprias roupas, era assim: desejava que o mundo inteiro as visse”, revela Hogenério Pereira da Silva que, entre as parcerias no mundo da moda, produziu criações para três coleções do estilista mineiro Ronaldo Fraga.
 
A carreira bem sucedida, acredita o próprio artista, é resultado dos caminhos diversos que decidiu trilhar. “Minha profissão é um punhado de coisas jogadas no liquidificador”, brinca. E não é à toa que ele diz isso. 
 
Ao longo dos anos, Hogenério dedicou-se a segmentos variados. Além da moda, meteu-se na produção de cenários e figurinos para peças teatrais, assumiu-se artista plástico e por causa disso participou até de mostras de design e decoração – como edições do Casa Cor e Morar Mais.
 
“O grande barato da arte é mostrar seu trabalho. Não importa onde seja. Quando criança, era tímido, mas como a vida estava lá fora, pensava: ‘já que tenho que sair, vou enfrentar o que vier’. No entanto, ao contrário do que muitos podem supor, demorei muito a assumir que era artista. Sempre fui muito rígido com isso. Hoje vejo que todo mundo é artista, né?”.
 
No fim da década de 1970, ele fez sua primeira obra: uma camisa que tinha o desenho da capa do disco da novela Dancin’ Days. Porém, só nos anos 1980, fez sua primeira exposição batizada “Personalidades com Uma Visão Pop”. Nelas, foram apresentados 12 quadros, entre eles, retratos de Cazuza, Andy Warhol e James Dean. “Trabalhos como esses quase me levaram embora, mas amo BH e acho que mineiro tem muito medo de sair de casa”.
 
Acidente
 
“Só quem passou pelo que passei entende o significado do termo ‘nascer de novo”, diz.
No dia do acidente, Hogenério havia combinado um encontro com um cliente, mas como não apareceu, amigos passaram a procurá-lo por todos os cantos da cidade até encontra-lo, desacordado, no Hospital Pronto-Socorro João XXIII. 
 
O artista tinha saído para andar de bicicleta quando bateu na lateral de um carro em movimento. Foi levado às pressas para o hospital, mas até hoje não consegue se lembrar de absolutamente nada.
“Muitas pessoas cruéis dizem que eu estava drogado, mas nunca usei nada! A única coisa que não consigo esquecer é a imagem do meu rosto completamente deformado”, recorda.
 
Mesmo depois de várias cirurgias, Hogenério ainda guarda cicatrizes. “Algumas pessoas dizem que é vaidade, mas por Deus, quem não quer ter um rosto normal?”, questiona.
 
Com o apoio da família, amigos e artistas, ele não esconde que muitos traumas ainda precisam ser superados, mas como a arte tem o costume de salvar, por hora, ele se dedica à série de esculturas “Talking Heads”. “Cada novo trabalho ao qual me dedico parece me dizer: ‘veja só, rapaz, aonde você conseguiu chegar’”.
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