
Vincent Macaigne já está sendo comparado a Gérard Depardieu, um dos maiores nomes do cinema francês. Muito disso se deve ao jeito falante, carismático e às características físicas, que geralmente o leva a interpretar profissionais autônomos, como escritores e médicos.
Em “Madrugada em Paris”, em cartaz nos cinemas, Macaigne faz um tipo de médico muito comum na capital francesa, que zanza pela cidade em seu carro fazendo atendimentos domiciliares durante a noite, conhecido (e criticado) também por ajudar viciados.
Seu personagem Mikael não é muito diferente do autor Léonard de “Vidas Duplas” (2018), de Olivier Assayas. Vive uma grande crise existencial, em relação ao trabalho e à família, revelando muitas dificuldades para abandonar uma conduta que trará consequências sérias.
O filme de Elie Wajeman se sustenta principalmente pela atuação de Macaigne. A sua expressão parece conferir, entre o azoado e a ingenuidade, uma espécie de salvo-conduto. Mesmo quando se envolve com a mulher de amigos, a atitude é justificada pela carência de afeto.
Se em “Vidas Duplas” esse perfil é mais consciente, com o lado conquistador preenchendo vazios, em “Madrugada em Paris” existe um desejo de fuga. O fato de se passar numa única noite já evidencia esta intenção, com o protagonista se confundindo com o submundo que visita.
Esse dispositivo – tudo acontece em menos de 24 horas – funciona até certo ponto. É possível compreender os motivos que levaram o doutor àquela situação, mas Macaigne chama muita atenção para si, deixando em segundo plano a reflexão sobre uma Paris pouco conhecida.
Todas as outras questões levantadas pelo filme ficam menores, porque os demais personagens, muitas vezes, só reagem às ações de Mikael. Poderíamos dizer que eles são fantasmas a atormentá-lo, mas não há qualquer estofo para se levar uma ideia como essa adiante.