
A foto maior, no alto desta página, flagra uma cena do filme “A Datilógrafa” (2012), uma simpática comédia francesa de Regis Roinsard, com Romain Duris e Deborah François. Sim, a atriz é a moça loira do clique, ambientado nos charmosos anos 50. Rose é uma secretária que, incentivada pelo chefe (Romain Duris), se inscreve em um concurso de campeonato de velocidade nos teclados – naturalmente, de máquinas de escrever. Disponível nas locadoras, o filme vale o investimento – tanto que foi um sucesso de bilheteria em seu país de origem.
Mas não, não é preciso entrar no túnel do tempo rumo a um período no qual teclados de computador nem pensavam em existir para encontrar, ainda hoje, pessoas que, longe de quererem disputar o número de caracteres disparados, estão mais coadunadas com um sentimento de nostalgia e apreço pela peça. Caso da cantora e compositora mineira Roberta Campos, que redescobriu essa antiga paixão para escrever letras e, não bastasse, dar forma física às poesias que, em breve, devem migrar para um livro – do qual ela prefere ainda não divulgar muitos detalhes. “Escrevo as poesias à máquina, depois levo para o computador para que a minha agente literária possa entregar à editora. (O livro) tem até nome, mas quero fazer uma surpresa”, diz a mineira de 36 anos, nascida em Caetanópolis (terra de Clara Nunes) e radicada há dez na capital paulista.
Roberta considera que, com a máquina de escrever, passa a ter mais uma ferramenta para seu trabalho. “Para mim, ela é diferente de escrever no caderno ou mesmo no computador. É uma forma a mais para criar”, explica. E vai além: é um processo que até interfere no ato criativo. “Porque a palavra, na máquina de escrever, não tem volta: escreveu está ali. É preciso pensar um pouco, porque a coisa é definitiva – salvo se quiser rasurar ou escrever de novo”.
Ainda criança, Roberta já manifestava apreço pelo utilitário. “Escrevia na máquina do meu tio o dia inteiro”, lembra a cantora, que comprou a sua Olivetti de uma amiga, há cerca de três meses. “Fazia tempo que queria ter uma”, admite.
Enquanto curte esse novo momento, Roberta se prepara para entrar em estúdio, já no início de 2015, para preparar um novo CD, que terá canções em parceria com Fernanda Takai, Danilo Oliveira e Nô Stopa (nome artístico de Aniela Stopa Juste, cantora e compositora filha do músico Zé Geraldo). Roberta está agora em processo de seleção das músicas. E nada impede que a sua Olivetti não possa colaborar nesta tarefa.
Pela sinceridade na mensagem
A empresária Maria Aparecida Ferreira é outra integrante do clube dos que não escondem sua paixão – e mesmo preferência – pelas máquinas de escrever. “Utilizo bastante, principalmente para correspondência pessoal, porque acho que a mensagem, transmitida com o auxílio da máquina de escrever, é menos impessoal do que um e-mail, uma mensagem digitada nas teclas do computador. Por ser mais lenta, é mais trabalhosa e, quando me sento diante dela (máquina de escrever), estou demonstrando toda a vontade de falar com essa pessoa, como se estivesse de fato falando com ela ao vivo. Já no caso do e-mail, você às vezes dispara uma mesma mensagem para dez pessoas de uma vez só, acaba sendo um ato muito impessoal”, frisa.
Aos 57 anos, essa paulista de Barretos, radicada há 24 anos em Minas Gerais, vai além em seus conceitos sobre o uso da velha e boa máquina de escrever. Para Maria Aparecida – que, na verdade, é mais chamada pelo apelido “Cida” – a máquina de escrever contribuiu, de certa forma, para a independência da mulher.
“Fiz a escola de datilografia aos 13 anos e, penso sim, que ela propiciou uma certa independência às mulheres, principalmente para as que queriam trabalhar fora. As minhas quatro irmãs, mais velhas do que eu, fizeram curso (de datilografia) e iniciaram a vida profissional em empresas por conta deste diferencial, seja secretariando ou outras atividades”, afirma Cida, que jamais esqueceu a sua professora de datilografia. “Era a Dona Esmeralda”.
Detalhe: Ela vasculhou tanto o Facebook que conseguiu encontrar a filha da ex-mestra. “E disse-lhe que sua mãe tinha sido muito importante em minha vida”, completa. Hoje, Cida tem uma IBM Elétrica e uma mini portátil que ganhou da irmã mais velha, Lígia, já falecida. Não empresta, não dá nem vende.
Outro apaixonado pela máquina de escrever é o professor de Língua Portuguesa e crítico de cinema Thiago Barcellos, 34 anos. Ele herdou o prazer do “toque na máquina” do pai, o jornalista Sérgio Barcellos. “De certa maneira, consegui resgatar esse ‘modus operandi’, tratar a máquina de escrever muito mais do que uma ferramenta de trabalho. Porque ela vai além disso. É uma relação nostálgica”, explica o mestre, que utiliza a sua para mandar mensagens especiais.
“Não a uso sempre, já a utilizei para mandar mensagem num encontro de ‘amigo oculto’ para uma amiga. Por causa da tipologia da letra, ela te remete a um passado romântico”, explica Thiago, que já enviou mensagem, utilizando a máquina, de felicidades de casamento para um casal de amigos. Assim, ele – que mantém o blog “Fósseis do Ofício” sobre cinema – não desgruda o olho de sua Olivetti Letera 22 (modelo clássico) – que, por sinal, herdou do pai.
A cronista Ana Elisa é outra fã de carteirinha
A poetisa e professora Ana Elisa Ribeiro é outra das que confessam, sem hesitação: sim, ela ainda usa máquinas de escrever. Mesmo que “de vez em quando”, mas de um jeito apaixonado, por causa do sentido sensorial que a máquina tem a capacidade de oferecer. “Na verdade, tenho um amor louco pela máquina do meu pai. Como objeto, principalmente. Um delírio. É rara”, declara-se, toda apaixonada, ela, que escreve para a revista eletrônica Digestivo Cultural (SP) desde 2003 e é líder do grupo de pesquisa (CNPq) Escritas Profissionais e Processos de Edição.
A máquina do pai de Ana Elisa é uma “Hermes Baby, com letra cursiva”. “E eu tenho a minha, que às vezes ajuda aqui. Mas é só por questão de barulhinho bom”, descreve, ela, uma perita na arte de extravasar sua veia criativa pelo formato crônica, gênero sobre o qual se debruça há mais de uma década.
Vale lembrar, aliás, que Ana Elisa tem um encontro marcado com o público mineiro nos próximos dias 10 e 11, quando vai ministrar a oficina “A cronista e as Palavras”, na edição de dezembro do projeto “Caro Leitor”, que acontece no Espaço Multiuso do Sesc Palladium.
HORA DO CONSERTO
Na capital mineira, vale lembrar, ainda há uma procura considerável para consertar antigas máquinas de escrever que insistem em deixar seus donos na mão.
Muitos deles se encaminham em direção a Silas Araújo, 62 anos, que – acredite – trabalha há pelo menos 40 anos nesse ramo. “Hoje conserto em média 20, 30 máquinas de escrever por mês. Mas, quando comecei, cheguei a ter contrato de até seis mil consertos mensais”, relembra Silas, proprietário da Strela Máquina, que fica localizada no edifício Arcangelo Maletta. Ele conta que a máquina de escrever está ainda muito presente em algumas repartições públicas – e nas administrações de cemitérios da cidade.