
“Quanto mais pessoal e privado um assunto, mais pra dentro, mais universal ele se torna”. É citando a xará que admira, a multiartista Marina Abramovic, que Marina Lima localiza seu novo álbum, “Novas Famílias”, lançado na última semana.
Quem acompanha a cantora sabe que batizar um trabalho com este título diz muito sobre seu universo habitado pela artista. Marina sempre foi “contemporânea”, no sentido de direcionar suas antenas (pessoais, criativas) para o rumo do aqui e agora, e sabe disso. “Essa é minha proposta desde o começo. Não sou saudosista, nostálgica. Gosto do tempo a que me foi dado viver. Assim me vejo enquanto artista, é o que sempre me
Dessa forma, o novo álbum é também o olhar de Marina para o mundo– e nem tudo o que seus olhos capturam parece feliz, para citar o título de seu disco de 1980. Assim, quando a cantora fala em novas famílias, não diz apenas no âmbito privado das relações possíveis: diz também da possibilidade que resta a todos. “Precisamos nos unir, o que está aí no poder não nos representa; e sim uma minoria gananciosa que está roubando nosso país. O lenço que uso na capa do disco não tem a ver com black blocs e sim com a ideia de estarmos forasteiros. Nós, que gostamos do Brasil, que queremos nossa pátria amada, nossa mãe gentil. Temos que ajudar, rever este país, se não acabou vai virar uma macha de sangue, lama e vergonha”.
Falo com Marina sob o impacto da execução da vereadora carioca Marielle Franco, acontecido na noite anterior. O episódio naturalmente atingiu em cheio a alma da cantora, uma das maiores cronistas musicais do Rio de Janeiro, autora de paisagens definitivas no inconsciente popular sobre a cidade e há 8 anos radicada em São Paulo– algo que, de alguma (triste) maneira, ilustra esta escolha. “Sentia uma certa dormência, uma maquiagem dos cariocas, uma visão do Rio muito ‘samba e caipirinha’. Tem isso, mas não só isso. Fui embora porque parecia que o Rio não tinha mais interesse sobre mim. Fui procurar algo maior, que pudesse me abranger, minha esquisitice, minha diferença”, diz.
Mas a cantora faz questão de ressaltar que a capital fluminense é “a cidade de todos os brasileiros” e que agora a hora é de “ajudar esta vitrine para todo o país”. E nem tudo é terra devastada: “Nova Famílias” conta com a participação de Letícia Novaes, a Letrux, cantora carioca que é um sinal de renovação para Marina. “Ela poderia ser minha filha”, comenta. “Ela estimula outras formas de expressão do carioca que muito me interessam”.