O primeiro acordo previa que os atores Jimena Castiglioni e Eliseu Custódio contariam com Júlio Maciel e Grace Passô como parceiros de luxo na criação de uma peça. Mas como acordos também se desfazem, "Memórias em Tempos Líquidos" é o ponto de chegada de uma verdadeira odisséia. Uma que se prolongou por dois anos e careceu trocar de pessoas para chegar a bons termos.
O espetáculo – que estreia na próxima sexta-feira (18), na Funarte MG, pela programação do edital de Ocupação do Galpão 3 – faz zoom num casal em momento interessante. Juntos há quatro anos, mas prestes a se separarem, ela perde a memória repentinamente. Parte insatisfeita da relação a pique, ele tenta reconquistá-la e ela busca lembranças que se esfumaçaram.
Bem no início, o enredo pretendia tocar no quanto as relações atuais são instáveis, inseguras e impermanentes, conforme o filósofo Zygmunt Bauman. Para materializar tal impressão, a equipe buscou subsídios nas ciências. Em muitos livros, na assessoria de um neurologista geriatra e num caso singular de perda de memória. Registrado em Belo Horizonte, mas que nenhum estudo médico consegue enquadrar, trazer explicação.
Aquela primeira equipe não se manteve: os compromissos de todos deixaram de colaborar, foi necessário armar outra. Assim é que Jair Raso foi chamado a participar. Neurocirurgião, dramaturgo (e diretor também), mais que rapidamente ele conseguiu cerzir toda a bagagem já reunida: um roteiro, o escopo de cenas e improvisações filmadas. Aproveitou ao máximo o que estava esboçado, só aumentou algumas coisas, bolou um início e um final.
Pano de fundo
Os problemas neurológicos do casal acabaram como pano de fundo do enredo. Embora a história não seja tratada linearmente, adianta Jimena, a relação dos dois se sobressai. A história é contada com lacunas, de propósito. Nem sempre os fatos ficariam tão claros ao público. Como teria lacunas e nem deve ser inteiramente clara a cabeça da mulher sem memória.
"O Joaquim Elias nos fala que as pessoas não vão ter certeza se, afinal, a história é a visão de um dos personagens, se é ilusão ou invenção do outro. Tudo muito sutilmente, claro", informa Jimena, uruguaia de Montevidéu, radicada em BH há dez anos. Não subia ao palco há cinco anos. Psicólogo clínico, Joaquim atua e ensina as técnicas do palhaço bufão. Já Eliseu é ator e palhaço, ligado ao Instituto HaHaHa.
Serviço
"Memória em Tempos Líquidos" – Funarte MG (rua Januária, 66, Floresta). Sexta e sábado, às 20 horas. Domingo, às 19 horas. Entradas a R$ 10 e R$ 5 (meia). De 19 a 27/10.