
Diretor de “O Menino e o Mundo”, Alê Abreu não se recordava que, na história do Oscar de animação, categoria criada há apenas 14 anos, um filme de língua não-inglesa levou a estatueta pra casa. Foi em 2003, com o japonês “A Viagem de Chihiro”, de Hayao Miyazaki. Lembrado pelo repórter, o realizador imediatamente busca na internet o rol dos concorrentes derrotados naquele ano.
A consulta não anima muito o diretor, que constata: foi um ano atípico entre as animações. “Uma temporada fraca, com ‘Lilo & Stitch’, ‘A Era do Gelo’, ‘Planeta do Tesouro’ e ‘Spirit’. Myazaki já era um diretor consagrado, e, na verdade, a Academia já devia um Oscar a ele. Não havia um filme da Pixar”, registra Alê, citando o nome do estúdio responsável pelo franco favorito da noite, “Divertida Mente”.
Segundo pelotão
Não fosse por “Divertida Mente”, as chances de “O Menino e o Mundo” faturarem o cobiçado troféu seriam maiores, segundo ele mesmo diz. “Ele ganhou os prêmios da indústria e isso conta muito lá. Os outros estão bem atrás. Na avaliação do meu distribuidor, temos mais chances que ‘Anomalisa’, que estava bem cotado no início. Podemos resumir assim: o filme da Pixar disparado e, no segundo pelotão, estamos à frente dos outros”, avalia.
Embora tenha viajado para os Estados Unidos há duas semanas, para participar do almoço dos indicados, além das costumeiras festas pré-Oscar, Alê é sincero ao dizer que “estranhamente, ainda não está ansioso com a cerimônia”. “Na hora talvez fique, vire a chave, quem sabe”. Explica que seu maior prazer sempre foi fazer filmes e que não está enxergando a premiação como uma “grande batalha”.
Volta ao cantinho
Tanto é assim que, pouco antes de embarcar para Los Angeles, palco da cerimônia, ainda não tinha visto dois de seus adversários: “Anomalisa” e “As Memórias de Marnie”, do Japão. “Não fiquei preocupado em saber sobre os meus concorrentes. Até porque, não depende mais da gente”, registra Alê, que gosta de “Divertida Mente” – “A Pixar sempre ousa um pouco mais”, analisa.
Ele define esse momento pré-Oscar como a passagem de um tufão em sua vida, e se vê ávido por “voltar para seu cantinho” e à “normalidade”. “O fato de o filme ter sido selecionado para o Oscar lançou uma luz nele. E fez com que conhecessem o meu trabalho”, salienta. Ele pondera que uma das razões do sucesso de “O Menino e o Mundo” é a sua universalidade, ao acompanhar um garoto que vai para a cidade tentar reaver seu pai, deparando-se com o mecanicismo e a falta de alegria.
Na França, antes mesmo de sua indicação ter sido anunciada, o filme foi lançado em 90 salas e arrebanhou 123 mil espectadores. Bem mais do que no Brasil, que, juntando seu relançamento, no mês passado, soma 35 mil. “A imprensa abraçou o filme de uma forma absurda. É muito querido por lá, onde a cultura da animação é muito forte. As crianças não veem só filme da Disney”.