
José era um dos dez filhos de uma família tradicional do interior do Piauí. Quando começou a “ficar esquisito”, o pai o tirou da escola e o trancou em casa. Vivia às voltas com bichos até que, com a morte do patriarca, resolveu assumir sua sexualidade. Passou a se chamar Kátia e venceu todos os preconceitos ao se tornar a primeira transexual do país eleita nas urnas.
É essa a história impressa no documentário dirigido por Karla Holanda, “Kátia”, atração da oitava edição da “Mostra de Cinema e Direitos Humanos da América do Sul”, que começa nesta terça-feira (3), no Cine Humberto Mauro. “Seria muito simplista querer contar tudo. Por isso achei que seria mais honesto tentar passar o que eu aprendi com ela durante nosso convívio”, observa Karla.
Piauiense como a personagem e professora de cinema da Universidade Federal de Juiz de Fora, a realizadora fugiu da abordagem clássica do documentário, evitando a simples sucessão de entrevistas. O filme é resultado de um convívio de 20 dias com Kátia em Colônia do Piauí, exibindo suas relações e a maneira como, sem saber, ilustrou as novas teorias sobre gênero e sexualidade.
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Karla menciona Judith Butler e sua teoria de que o gênero passa pela questão da performatividade. Para a filósofa americana, transexuais como Kátia apontam para a subversão da ordem compulsória, contra a ideia de que existem dois sexos fixos e coerentes. Pelo seu olhar, os indivíduos excluídos pela sociedade estariam no mesmo patamar dos gêneros dominantes.
Política
Kátia foi quem levou adiante a vocação da família, muito conhecida no Estado por sua ligação de anos com a política local, elegendo-se como a vereadora mais votada de Colônia do Piauí em 1992. Ficou no cargo por três mandatos consecutivos. Entre 2004 e 2008, foi vice-prefeita e agora saiu da cena política devido ao que ela chama de “golpe”, após receber uma proposta da atual administração que não se concretizou.
A diretora, estreante em longas-metragens, destaca que a sexualidade de Kátia não está em primeiro plano. Surge, de forma menos explícita, nos diálogos com os moradores, como o padre e o juiz da cidade. “Promovi certos encontros que eu presumia que teriam um resultado bacana. Com o juiz, por exemplo, meu interesse era mostrar a tentativa dela em registrar legalmente a filha que adotou”.
O que transparece no filme é uma pessoa que, apesar do pouco estudo, se revela inteligente e perspicaz, sempre se fazendo respeitar. “Com uma riqueza assim, não precisaria explorar a opção sexual dela. O momento que mais emocionou foi quando, influenciada por uma amiga, para quem todo filme sobre travesti tem que ter corpo pelado, ela me perguntou se eu queria filmá-la nua. Seria muita sordidez minha”.
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