'Minha Obra-prima' retrata uma Argentina entre a modernidade e a decadência

Paulo Henrique Silva
Publicado em 29/03/2019 às 16:54.Atualizado em 05/09/2021 às 18:01.
 (ARTEPLEX/DIVULGAÇÃO)
(ARTEPLEX/DIVULGAÇÃO)
 
Se a primeira e segunda partes do filme argentino “Minha Obra-Prima”, em cartaz no Cine Belas Artes, fossem trocadas, o resultado seria bem próximo a “O Cidadão Ilustre”, trabalho anterior do diretor Gastón Duprat.
 
São dois longas de movimentos invertidos, mas que apontam para o mesmo caminho: a fuga do protagonista da cidade natal como forma de se reinventar, renegando, se for preciso, todos estes laços em nome da arte.
 
É o que faz Renzo, um pintor de grande sucesso nos anos 70 e 80 que, sem abrir mão do próprio estilo, se vê agora como ultrapassado. A crítica irreverente ao universo artístico, presente em “O Cidadão Ilustre”, se intensifica na trama.
 
O ponto diferente é a relação do pintor com o marchand Arturo. Em princípio, eles parecem distantes em caráter e idealismo. Arturo surge inserido num mercado movido mais a modismos e grandes lucros.
 
Esse contraste inicial se torna um artifício interessante, pois passamos a querer responder, durante toda a narrativa, a uma questão apresentada por Arturo logo na abertura, quando ele se revela um galerista assassino. 
 
Assim o filme retroage ao que seria o início desta descida ao inferno. Vemos o conflito com Renzo em franca aceleração, não sendo difícil se imaginar uma segunda morte, esta física, pois, artisticamente, ele já estaria sepultado.
 
Mortes
Em “O Cidadão Ilustre”, o premiado escritor do título também passa por duas “mortes” – a primeira, quando desdenha, como residente espanhol, o próprio passado terceiromundista. A segunda, quando resolve voltar para receber uma homenagem e enfrenta fantasmas particulares.
 
Estas duas “mortes” se entrecruzam tanto num quanto no outro filme, mostrando que o primeiro homicídio é aquele imposto a nós mesmos, quando tentamos refutar aspectos que são inerentes à nossa formação.
 
É neste ponto que entra em cena um retrato mais irônico, que sai do pessoal e se expande para a Argentina, definida como um país que vive entre o desejo de ser cosmopolita e moderno e a realidade decadente e selvagem.
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