
A partir do momento em que se tornou pai, Glicério do Rosário logo percebeu como eram danosas as construções sociais desde o nascimento da criança. “A mulher é protagonista do parto, mas não precisa fazer tudo sozinha. O pai tem que partilhar desse momento, assim como de toda a vida da criança. O papel dele não é unicamente ser o provedor”, registra o ator mineiro.
A experiência de acompanhar o crescimento dos dois filhos resultou, primeiramente, na observação de que, “quando a família não contesta o patriarcado, acaba deixando o machismo alimentar muitas coisas ruins, como o feminicídio e o preconceito”. Daí veio o desejo de compartilhar com mais gente, originando a peça “Pai”, cartaz deste sábado (12) no teatro do Minas Tênis Clube.
Glicério não se contentou apenas em falar desse “novo modo de ser homem”, estendendo as suas questões a um outro pai, mais simbólico, representado pelo Estado. “O Estado opressor, que muito cobra e só dá o que quer, é fruto desse pai tradicional, que não é parceiro e não dá carinho. A ausência de um está diretamente relacionada à ausência do outro. Toda a dramaturgia foi construída nesse sentido: falar do pai-país”, observa.
Ele destaca que o momento no país é “tétrico, como se tivéssemos retornado há 30 anos, em que se destaca um discurso extremamente atrasado, ligado a esse lugar do provedor macho e da mulher submissa que cuida da casa”. Para Glicério, todos “os tipos de perversidades acabam sendo autorizadas nesse bojo”, como o fato de poder o homem poder matar a esposa, se for traído.
A ideia de Glicério, que também é autor do texto, é não fornecer respostas, deixando várias perguntas pelo caminho. Ele se vale de dois personagens quase opostos, a partir de um pai inspirado nas experiências que vivenciou um professor revolucionário, que está extremamente insatisfeito com um Estado corrompido. Ambos interpretados por Glicério.
Não é a primeira vez que o ator envereda por um monólogo. Em 2008, concebeu “São Francisco de Assis à Foz”, usando a figura do santo para falar de amor. “Assim como ‘Pai’, eu saía de uma esfera religiosa e humana para entrar na questão política. Aliado ao rio São Francisco, usei a metáfora da luta para se chegar ao mar e de São Francisco para chegar à Deus”.
A pandemia foi determinante para retomar a opção pelo monólogo em “Pai”. Isolado em casa, Glicério aproveitou para costurar o texto e experimentar cenas. “A pandemia de algum modo me levou a esse caminho solo. Estava muito a fim de falar de minha vivência e me pus a escrever”, relata o ator, que fará a primeira apresentação da peça em formato presencial.
SERVIÇO
“Pai” – Amanhã, às 21h, n–o Teatro do Minas Tênis (Rua da Bahia, 2244). Ingressos: R$ 40 (R$ 20, a meia). À venda na bilheteria e no site da Eventim.
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