
Quando o designer gráfico Fred Birchal recebeu, em meados do ano passado, um e-mail em inglês de uma Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, ele logo imaginou se tratar de uma brincadeira. Não poderia ser a mesma que entrega o prêmio máximo do cinema americano. “Fiquei em dúvida, mas depois trocamos mais e-mails e percebi que era a Academia que criou o Oscar”.
Até aquela altura, Fred, um cinéfilo de carteirinha, já tinha visto inúmeros filmes produzidos em Hollywood, muitos deles ganhadores da estatueta dourada. Ele jamais iria conceber que era uma via de mão dupla, com a Academia “vendo-o” também – no caso, as suas ilustrações de filmes. Foi assim que surgiu o convite para conceber o material de divulgação da exposição “Hollywood Costume”, em Los Angeles.
“Fazia – e ainda hoje faço – esses desenhos sem intuito comercial, por paixão mesmo. O contato da Academia foi um reconhecimento do meu trabalho”, comemora Fred, que reuniu parte do material para uma mostra no Diamond Mall, em cartaz até 12 de julho. Os desenhos produzidos em computador foram inspirados em 150 figurinos escolhidos para “Hollywood Costume”, pertencentes a antigos e novos filmes.
Ele optou por desenhar as roupas dos filmes que mais gostava, como “Caçadores da Arca Perdida” e “Star Wars”, e também aqueles em que poderia contar com fotos de apoio. “A minha ideia foi não inventar nada, sendo mais próximo possível do que está no filme”, registra Fred, que reviu os longas da franquia “Jornada nas Estrelas” para prestar atenção nos detalhes dos uniformes, que são específicos de cada personagem.
“Os figurinos são como ícones dos filmes, em que as pessoas batem o olho e se lembram onde viram”, ressalta o designer gráfico. Algumas das vestimentas, no entanto, não são imediatamente reconhecíveis, como nos casos dos filmes “Um Corpo que Cai” e “Os Pássaros”, ambos do diretor Alfred Hitchcock, por serem mais comuns. “Mas são importantes pela qualidade da obra”, defende.
A roupa não é usada apenas para vestir os personagens
Se o cinema mineiro tem um rosto e um corpo, com uma turma jovem que vem chamando a atenção em festivais no Brasil e no exterior, a responsabilidade de “vesti-los” é de Tati Boaventura.
Ela assina o figurino de grande parte dessas produções, como “Ela Volta na Quinta”, exibido no Festival de Cannes nesse ano. E se prepara para entrar na pré-produção do longa de estreia de Ricardo Alves Jr.
Diferentemente d o guarda-roupa exuberante de filmes hollywoodianos, seu trabalho consiste mais em “ficar baixinho”, como ela diz, ao falar de um nicho mais contemporâneo.
“O figurinista tanto pode fazer um trabalho para ficar meio invisível, para não chamar mais a atenção do que o personagem, como é o meu caso, quanto algo mais forte, para provocar impacto”, salienta.
A receita, nos dois casos, é a mesma: a roupa não está ali simplesmente para vestir os personagens. “Ela diz muito, já na primeira entrada, sobre quem é a pessoa, sua posição social e personalidade”.
Tati começou a trabalhar com figurino para cinema em 2009, quando ainda estudava moda na UNA e ajudava os alunos de cinema a fazer os seus filmes. E corroborou muito o fato de ser uma cinéfila de carteirinha. “Cinema e moda são as minhas duas grandes paixões. Mas nunca me imaginei figurinista, pois não tinha dimensão da produção em Belo Horizonte. Hoje adoro ficar no set”, registra.
Avenida Paraná
Por enquanto, ainda não é uma atividade que permita a Tati sobreviver apenas disso, ao contrário de mercados como São Paulo e Rio, onde, além do cinema, os figurinistas podem contar com a publicidade, o teatro e o show.
“Ainda trabalho dentro de uma realidade de orçamento menor. No lugar do brechó, eu vou à Avenida Paraná, onde estão lojas onde posso encontrar roupas baratas e que têm a ver com a realidade da periferia mostrada nos filmes que trabalho”, explica.
Uma de suas fontes é a rua. Se é um filme localizado na periferia de Contagem, ela anda pela rua da região. Em “Quinze”, de Maurilio Martins, “periferizou” tanto a atriz Karine Teles que o diretor elogiou dizendo que ela ficou igual às mulheres do bairro.