
“O feedback está incrível”, resume, entusiasmado, Alexandre da Cunha, um dos curadores da mostra “E você nem imagina que Epaminondas sou eu”, dedicada ao artista Amadeo Luciano Lorenzato (Belo Horizonte, 1900 – idem 1995), em cartaz desde o último dia 30 de agosto, na Galeria Bergamin, em São Paulo. Alexandre, cumpre dizer, trabalhou junto à artista plástica mineira Rivane Neuenschwander. “Estamos impressionados com a recepção aos trabalhos dele”, reforça Cunha, que tem uma explicação para o fenômeno. “A gente acredita que as pessoas, a certa altura, ficam um pouco saturadas de ver trabalhos tão parecidos, principalmente na produção mais jovem...”, diz, referindo-se à cena atual. “Fica muito difícil encontrar algo novo e diferente. E o Lorenzato tem isso. Apesar de não serem trabalhos produzidos recentemente, eles têm um frescor impressionante, realmente são atemporais”.
A exposição traz 30 pinturas, entre abstrações, naturezas-mortas, paisagens e cenas do cotidiano de bairros periféricos de Belo Horizonte, em sua grande maioria datadas entre as décadas de 1970 e 1990. A dupla curatorial incluiu também o óleo sobre placa sem título (1961), que contém a frase que batiza a exposição, e um óleo sobre tela sem título de 1948 com um texto algo singular no verso, que revelaria o espírito subversivo do artista: “Amadeo Luciano Lorenzato. Pintor autodidata e franco atirador. Não tem escola. Não segue tendências. Não pertence a igrejinhas. Pinta conforme lhe dá na telha. Amém”.
O curador concorda. “Acho difícil situar a obra de Lorenzato em um nicho especifico da cena artística. Como ele mesmo dizia, foi um artista que não pertenceu a nenhum grupo ou escola artística”. Aliás, Alexandre ressalta a importância de galerias e outros espaços públicos estarem mostrando a obra de Lorenzato fora do contexto de “arte popular”. “Ou outros rótulos que não correspondem à grandeza de sua obra”. Para ele, o aspecto mais representativo da obra de Lorenzato é a liberdade com que ele pintava. “Isso é uma das qualidades mais importantes em qualquer artista”.
Em novembro, obra do artista irá à Itália
Trabalhar com a Rivane, conta Alexandre, foi um privilégio. “Somos muito amigos, temos uma afinidade grande, existe uma troca constante e muito natural sobre a nossa prática como artistas. Foi a primeira vez que fizemos uma curadoria juntos e foi muito estimulante. Tivemos algum conflito no início, pois queríamos mostrar a obra do Lorenzato de forma ampla. Depois de um tempo, percebemos que seria mais interessante fazer um recorte do trabalho enfatizando a qualidade da pintura dele e a liberdade que norteou toda a sua produção artística”, explica.
Infelizmente, porém, ele diz que não há planejamento de nenhuma itinerância para esta mostra. “Mas estamos levando o Lorenzato para a Itália, em novembro. A Galeria Bergamin vai fazer um estande só com trabalhos dele na feira ‘Artissima’. Estamos falando com galerias internacionais que demonstraram interesse em levar o trabalho a outro países, mas tudo ainda prematuro. Queremos ter o cuidado de não super expor o artista também”, ressalva.
Singular
A trajetória de Lorenzato é bastante singular: realizou a sua primeira individual aos 67 anos. Foi em 1920 que saiu pela primeira vez da capital mineira, rumo à Itália. Lá, trabalhou na reconstrução da cidade de Asiero, destruída na Primeira Guerra Mundial, e em 1925, realizou a primeira e única incursão em estudo formal de arte, na Reale Accademia delle Arti, em Vicenza. Ao lado do artista holandês Cornelius Keesman percorreu, de bicicleta, países como a França, Áustria, Bulgária e Turquia. Retornou ao Brasil em 1948, já casado com uma italiana.